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Gretchen

Luísa Nóbrega (2017)

olhei tanto nos olhos do pastor alemão que seu focinho saltou como pedra de estilingue e seus globos oculares rodopiaram translúcidos, como bolas de gude.
não era um cachorro, era o mefisto.
o que quer dizer que talvez eu não te reconheça depois de acordar, semana que vem.

da primeira vez que encontrei o diabo, ele estava de óculos escuros

não tenho exatamente por que fazer um pacto com o demônio, mas queria fazer sexo mais vezes
gosto desses demônios que espremem pé o esquerdo no meio da porta de elevadores quebrados, se arrastam debaixo de viadutos,
arranham bancas de jornal

os demônios são cinzentos, e eu sou torpe.

.

ando ficando possuída, às vezes.
faz umas semanas, enquanto rodopiava numa casa noturna, eu fantasiava com próteses dentadas e repetia
utopia utopia utopia
de vez em quando eu faço sexo comigo mesma, estendida sobre os azulejos.
consigo lamber meus orifícios todos, como se fosse um gato
rezo com facas de cozinha escondidas nas coxas e polegares unidos
deixo minha perna desatarraxar, e esqueço do sol

e então eu te pergunto: como viver colecionando hologramas adoravelmente distorcidos? os psicanalistas vão adivinhar algum trauma, os psiquiatras vão me receitar pílulas, mas vou continuar jogando o carro desgovernado até a beira dos poços de petróleo, das represas fundas de água incandescente.
quer fazer minha mala derreter?

é como se os gagos possuíssem um tipo de vidência, proferissem feitiços à sua revelia, distorcessem verbos até provocar curtos-circuitos do dito dito dito dito-cujo

.

ontem peguei um ônibus cheio de marinheiros de boinas vermelhas e camisetas listradas que se agarravam por trás se ameaçando com canivetes
como naquela adaptação do fassbinder para o livro do jean genet, querelle
roubei um canivete e desenhei treze listras entre o meu peito e a minha virilha

um dos marinheiros tinha cabelos longos como uma sereia muda
e a imagem daquela cabeleira vasta, grossa,
e os pingos de sangue na minha camiseta branca decidiram, de certa maneira, meu destino.

.

os marujos se movem repetidamente, em bando.
um é a réplica do outro, como em uma alucinação.
eu quase morro de tanta comoção e desamparo.
eu quase morro, mas eu não quero morrer.

.

decoro na minha cabeça um poema de um livro que eu nunca li,
de um livro que me salvaria sem eu saber, e que já não existe.

escondo os dedos sujos de graxa para não manchar as
páginas imaginárias
estou com a última ficha na mão, vou
apostar tudo

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