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camelos debaixo do sol

Luísa Nóbrega (2016)

1.

a Nico vivia esquecendo coisas que todo mundo diz

que ninguém esquece

como primeiro beijo, a primeira trepada, etc

um dia ela aprendeu a andar de bicicleta

mas não o suficiente para evitar uma insolação

ela usava um turbante

por causa do sol escaldante de ibiza

acontece que dependendo do ângulo em se bate a cabeça

de nada adiantam tecidos amortecedores ao redor da testa

você acaba de boca aberta

ao lado da roda de bicicleta

mostrando aquela mancha diagonal

nos teus dentes da frente

ouvindo o cérebro sangrar

com a mesma expressão de desamparo e espanto

que fazem os camelos

quando mostram a língua

.

a nico não conseguia mexer a cabeça

nem responder as perguntas

do estranho que a encontrou estatelada

no meio da calçada

enquanto ele a carregava para dentro de um taxi

ela acenava com as mãos que não, que não

no primeiro hospital não tinha médico nenhum

no segundo também não

no terceiro abriram a cabeça dela

e encontraram uma poça de sangue que cantava

morrer é um pouco como gritar no deserto

como você gritou naquele filme do philippe garrel

você podia ter sido atriz se gostasse um pouco mais

de acordar cedo

2..

nico, nico, para quê que a gente dorme

eles te chamavam de black nun, a freira negra

porque você era celibatária como um corvo

o leonard cohen te chamava de joana d’arc

o doutor demetrius, de the angel of death

o problema é que nenhum anjo socorre outro anjo

na hora da própria morte

seria demasiada redundância

e perda de tempo

com tantos desastres acontecendo por aí

por que é que alguém ia fechar os olhos arregalados

de uma filha de nazista que cantava com voz de homem

teu filho envelheceu depressa

tua biografia não autorizada me revirou o estômago

eu tenho pouco senso de humor

e só rio nesses momentos desastrados

a nico ainda fazia sexo

quando foi morar com o iggy pop

por algumas semanas

eles já eram junkies mas até que não tanto

ela comia arroz integral com pimenta

para ver se se curava de uma infecção no ouvido

o iggy pop dizia que um dia

quando as pessoas tivessem ouvidos para ouvir a nico

elas iam ficar de boca aberta, salivando

e criar falsas orelhas de abano

recortadas em cartolina

o iggy pop dizia que andar com a nico

era que nem estar com um cara

except that she had girl parts

3.

li um artigo do the guardian na internet

que dizia que a nico não era flor que se cheire

dizem que ela quase atingiu o olho de uma mulher negra

com a ponta de uma garrafa

dizendo I hate black people

um artigo de jornal e todo meu texto se espatifa

meu estômago revira em treze convulsões

e tudo se mistura, a mesa de bar, os cacos,

a manchete, os vômitos

daí você se lembra que quando era adolescente

a nico foi estuprada com outras garotas

por um sargento negro americano

ela trabalhava para a força aérea americana em berlim

ela tinha quinze anos

teu estômago se revira em mais algumas convulsões

porque uma coisa não justifica a outra

ela não era inocente mas estava na merda

ela estava na merda mas não era inocente

e essas cadeias engatilhadas de brutalidade gratuita

te fazem ter vontade de pedir asilo em alguma nave alienígena

a nico é essa estranha que você não consegue deixar de amar

mesmo com todas as ressalvas do universo

que merda

não sei se eu consigo te explicar isso

se eu consigo te explicar como eu amo a nico

mesmo ela sendo uma junkie com tendências nazi

segundo certos boatos

4.

ela está virada para mim, de boca aberta, pálida

as sobrancelhas arqueadas

estupefata

parece uma estátua

tem gente que vira estátua, ou árvore, antes do tempo

tenho vontade de colocar a mão dentro da boca dela

como eu colocava

na boca de um oráculo de plástico

de um parque de diversões em são paulo

quando eu era pequena

o oráculo dizia, com uma voz robótica cavernosa:

ponha a mão na minha boca

e eu obedecia

o oráculo do parque de diversões

era a imitação de um monumento de roma

que morde a tua mão

se você contar uma mentira

eu colocava a mão lá dentro e tinha medo de estar mentindo

mesmo dizendo a verdade

mesmo não dizendo a verdade

juro que a nico estava virada para mim

de boca aberta, lábios púrpura

eu tinha vontade de colocar a mão

na garganta dela

para ela não morrer sozinha

enfio a mão na boca da nico

como os médicos enfiam palitos de sorvete

na tua boca

para enxergar tuas cordas vocais

nico, enfio a mão na tua boca

como que dentro da garganta de um cavalo

a nico é um cavalo, eu tenho certeza

não, não tenho certeza de nada

a nico não é um cavalo, ela é um camelo

com duas corcovas cheias de água

e dois braços cheios de pus

coloco a mão na boca do camelo

para tocar tuas cordas vocais

vamos fazer um pacto de sangue, nico icon

vamos fazer um pacto de anagramas

eu arrasto as minhas vogais

como você arrasta as tuas

ando viciada em oráculos

quero derramar um pouco de saliva

nos teus cílios

5.

a nico atravessava fronteiras

com heroína escondida dentro do ânus

colheres entortavam quando ela cantava em alemão,

a língua mais antipática do mundo

jogaram garrafas na nico

na penúltima vez que ela tocou em berlim

o último show da nico foi num planetário

cheio de ecos

ela ia alfinetando estrelas como mariposas

com a língua

estrelas é o tipo de palavras

que devia ser proibido nos poemas

mas foda-se

.

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