{"id":14658,"date":"2020-12-04T10:15:49","date_gmt":"2020-12-04T09:15:49","guid":{"rendered":"https:\/\/magazin.stadtsprachen.de\/en\/?post_type=stsp_text&#038;p=14658"},"modified":"2021-02-07T15:00:24","modified_gmt":"2021-02-07T14:00:24","slug":"poemas-jo-osbornia","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/de\/text\/poemas-jo-osbornia\/","title":{"rendered":"Poemas"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>a vitrine <\/em><\/strong><\/p>\n<p>eu sou quem passa e quebra a vidra\u00e7a. lan\u00e7o uma pedra, que estilha\u00e7a os cacos pelo ch\u00e3o. lan\u00e7o com raiva, lan\u00e7o a raiva, a raiva na pedra. a pedra \u00e9 pesada. faz anos que me afastaram da pedra. e eu s\u00f3 suplicava por uma linguagem, uma forma nova de falar. na verdade, eu s\u00f3 n\u00e3o morri porque eu sonhei um dia em quebrar uma vitrine, quebrar com uma pedra uma vidra\u00e7a. parecia uma revela\u00e7\u00e3o. e eu acordava gritando, voltava pro sono desesperado, ainda gritando. de forma que o grito n\u00e3o escapava. eu demorei para lembrar do sonho, porque eu nunca lembrava de sonho nenhum. de forma que eu n\u00e3o sonhava. um dia ent\u00e3o, achei um poema que nunca mais encontrei. dizia: sonhe. ou algo mais po\u00e9tico que resumo agora assim. sonhei ent\u00e3o com a alavanca. era uma ba\u00eda, com diques de madeira projetando-se ao meio, como cal\u00e7adas ao entardecer. e a gente mergulhava a\u00ed, ao fundo uns pr\u00e9dios de vidro. pr\u00e9dios de vidro que se quebravam quando a alavanca alavancava. eu nunca entendi esse sonho, at\u00e9 decidi escrever sobre ele, mas em v\u00e3o, eu nunca compreendi a ideia da alavanca. como uma apari\u00e7\u00e3o prog\u00eanita da indiferen\u00e7a, ela nunca mais voltou. fiquei anos mais sem sonhar. foi ent\u00e3o que vi a pedra na minha m\u00e3o. e era pesada, muito pesada, mas antes sequer de resolver pous\u00e1-la, vi a vitrine na minha frente. jog\u00e1-la, arremess\u00e1-la: uma associa\u00e7\u00e3o t\u00e3o direta como ligar uma luz pelo interruptor. eram esses os verbos que faltavam, eram eles que cortavam agora a penumbra da mata em dire\u00e7\u00e3o ao Novo, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 clareira mais adiante, o sonho da pedra tinha dado um salto incompreens\u00edvel, mas a\u00ed talvez repousasse a resposta para isso. e cortei meus p\u00e9s quando cheguei, eram cacos da vidra\u00e7a no ch\u00e3o. chorei \u2014 n\u00e3o pela ferida, pois contemplava o sangue com estranha bravura, sen\u00e3o por mim mesmo, por mim vitrine; era uma dor t\u00e3o grande que demorara para enfim tornar-se prazerosa.<\/p>\n<p><strong>junho, 2018<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>ember<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A confronta\u00e7\u00e3o com o Novo era algo que h\u00e1 muito vinha-lhe causando nervosismo, sem sequer dar-se conta. Deixando o tempo passar, e deixando o consciente esquecer das coisas pro inconsciente inesquec\u00edveis. Seguia sempre querendo desbravar, por mais e mais. Em alguma medida, era tipo colonizador. O que naturalmente lhe permanecia impercept\u00edvel, afinal, o que eu mais quero \u00e9 aprender mais, descobrir mais; ser em outras coisas: n\u00e3o em mim. Como custava-lhe dar-se conta. A conta das coisas que viveu. At\u00e9 onde \u00e9 poss\u00edvel viver impedindo de contar-se? Um grande desafio. Fazer da conta, um conto. Fazer do bicho, uma bicha. Do teto, a teta. Meio, meia. E enfim\u2026 \u00c9 acreditar que um dia todos renascemos no Novo: a antiga f\u00eanix dos eg\u00edpcios, dos chineses, dos gregos. E que um dia olvidamos; que um dia vai passar &#8212; N\u00e3o passa, \u00e9. Entrou em voc\u00ea e n\u00e3o sai mais. Todas as cicatrizes s\u00e3o para sempre. O Novo n\u00e3o \u00e9 um projeto de coisas in\u00e9ditas, o Novo, novo mesmo, \u00e9 antigo. \u00c9 o Antigo. Testamento: o Legado. O que voc\u00ea deixou para voc\u00ea mesmo. \u00c9 uma incurs\u00e3o ao passado, vivendo o momento presente &#8211; e, assim, a viagem no tempo \u00e9, de todas utopias, a menos ut\u00f3pica. Porque basta sentir o que se <em>era <\/em>antes, para ser de novo. O que na imperfei\u00e7\u00e3o do Tempo-verbal n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o agudo, pontudo, como o que se <em>foi<\/em>. Por sorte tamb\u00e9m: os h\u00e1bitos, os processos, as repeti\u00e7\u00f5es, que para se tornarem Imperfeitas tantas vezes tiveram de ser &#8212; com que pretens\u00e3o fingimos esquec\u00ea-las, com que pretens\u00e3o fingimos fazer delas Passado? A viagem milagrosa no tempo basta-se com um fechar dos olhos e Lembrar-se. Causa n\u00e1useas \u00e0s vezes. Pensa que se seguir com essas incurs\u00f5es sem exatamente saber por onde ir sofrer\u00e1 uma gastrite ou um surto. Mas na ousadia de se enxergar como <em>ember <\/em>(h\u00e1 muito vinha evitando repetir \u201chumano\u201d, \u201chomem\u201d etc; ent\u00e3o descobriu que, em h\u00fangaro, <em>ember <\/em>\u00e9 o \u2018Humano\u2019 numa antiga mistura etimol\u00f3gica entre \u2018mulher\u2019 e \u2018homem\u2019; nessa palavra que parecia pegar fogo&#8230;) n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel se absolver do castigo, justamente porque <em>ember<\/em>&#8230;. J\u00e1 os Homens, vivos, os Homens imbat\u00edveis, os Homens que nunca tiveram de pensar nada sobre si, porque eram Homens &#8211; o mal deste planeta, como disse Montaigne, \u00e9 que temos que viver entre eles &#8211; seguem na sua usurpa\u00e7\u00e3o do Novo. A f\u00eanix \u00e9 um desses animais, portanto, que o Homem inventa para si e para a sua mitologia. E a mitologia do Homem \u00e9 isto: acreditar que o Novo \u00e9 s\u00f3 ele descobrir, que o Novo \u00e9 um lugar no Futuro onde a ferida n\u00e3o existe; que o Novo \u00e9 um lugar em que tudo mais \u00e9 in\u00e9dito, menos ele<\/p>\n<p><strong>julho, 2018<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>a vitrine eu sou quem passa e quebra a vidra\u00e7a. lan\u00e7o uma pedra, que estilha\u00e7a os cacos pelo ch\u00e3o. lan\u00e7o com raiva, lan\u00e7o a raiva, a raiva na pedra. a pedra \u00e9 pesada. faz anos que me afastaram da pedra. e eu s\u00f3 suplicava por uma linguagem, uma forma nova de falar. na verdade, eu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":14496,"template":"","categories":[20,11],"class_list":["post-14658","stsp_text","type-stsp_text","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-issue-16","category-lyrik"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Poemas - 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