{"id":14844,"date":"2020-12-04T09:40:18","date_gmt":"2020-12-04T08:40:18","guid":{"rendered":"https:\/\/magazin.stadtsprachen.de\/en\/?post_type=stsp_text&#038;p=14844"},"modified":"2020-12-09T13:10:00","modified_gmt":"2020-12-09T12:10:00","slug":"a-crianca-do-umbral","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/de\/text\/a-crianca-do-umbral\/","title":{"rendered":"A crian\u00e7a do umbral"},"content":{"rendered":"<p>Mal transp\u00f4s o umbral o velho cruzou-se ali mesmo com o \u00faltimo leitor, que se diria prestes a sair j\u00e1 que no \u00e1trio da biblioteca se achava. O velho, visivelmente ofegante, logo meteu conversa com o leitor, qui\u00e7\u00e1 o \u00faltimo leitor, qui\u00e7\u00e1 o \u00fanico&#8230;<br \/>\n\u2013 Vejo que se apronta para fechar&#8230; Far\u00e1 o favor de dizer-me a que horas posso voltar amanh\u00e3?<br \/>\n\u2013 A entrada \u00e9 livre a qualquer hora, e a sa\u00edda tamb\u00e9m. A porta desta biblioteca est\u00e1 sempre aberta pelo que nunca se volta nem nunca se chega a partir. Como v\u00ea, n\u00e3o era preciso o senhor ter-se apurado. Mesmo se tardou em chegar, aqui o esper\u00e1vamos.<br \/>\n\u2013 Receio ent\u00e3o que o meu problema passe a ser outro. Rodeado de tantos livros, temo adormecer aqui mesmo durante a noite. Seria inc\u00f3modo bastante pedir-lhe que me despertasse no caso de ser vencido pelo sono?<br \/>\nO leitor acercou-se um pouco mais, olhou a cara do velho e ponderou-o, escrutinando aquele rosto estafado e de f\u00e1cies ainda ruborizadas, pensando que se tratava de um caso perdido. Dava-lhe a ideia de que o velho homem n\u00e3o tinha os p\u00e9s assentes na terra.<br \/>\n\u2013 Bem, nesse caso, recordo-lhe que \u00e0 esquerda do vest\u00edbulo onde nos encontramos fica o \u00fanico lavabo, hoje em dia imprest\u00e1vel mas cuja estreiteza permite a um adulto dormir em p\u00e9.<br \/>\nIgnorando a resposta como s\u00f3 os velhos sabem fazer, o velho apoiou-se vigorosamente na bengala e insistiu:<br \/>\n\u2013 \u00c9 que receio perder-me no tempo.<br \/>\nUm leve sorriso aflorou aos cantos da boca do leitor, que condescendeu:<br \/>\n\u2013 Esse medo s\u00f3 teria raz\u00e3o de ser se a nossa biblioteca fosse infinita e ilimitada.<br \/>\n\u2013 Como? Sabe ent\u00e3o de Babel&#8230;?<br \/>\n\u2013 O senhor parece espantado com a falta de mem\u00f3ria do novo mil\u00e9nio. Talvez n\u00e3o passe de um inconsciente sentimento de culpa&#8230;<br \/>\n\u2013 Errar \u00e9 humano.<br \/>\n\u2013 Saber\u00e1 melhor do que eu que o problema n\u00e3o \u00e9 errar, mas deixar-se cegar pelo tempo.<br \/>\nO velho al\u00e7ou a cabe\u00e7a na direc\u00e7\u00e3o da silhueta que pairava \u00e0 sua frente. O seu rosto ganhou uma express\u00e3o obscura, e inquiriu:<br \/>\n\u2013 Como sabe que vim a perder a vis\u00e3o?<br \/>\n\u2013 Lamento a sua m\u00e1 sorte, mas n\u00e3o me referia a si em particular. Tenha-me em boa f\u00e9. Foi um coment\u00e1rio geral.<br \/>\nAl\u00e9m disso, n\u00e3o engulo a patranha da psican\u00e1lise ou da filosofia barata do mindfulness, que impele ao conhecimento profundo do eu para que a realidade do mundo continue intacta.<br \/>\n\u2013 Tenho de admitir que vi mais do que devia. Repito-me se disser que <em>s\u00f3 perdi a v\u00e3 superf\u00edcie das coisas<\/em>.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o serei eu a contradiz\u00ea-lo.<br \/>\n\u2013 As pessoas imaginam os cegos encerrados num mundo negro.<br \/>\n\u2013 O problema n\u00e3o s\u00e3o as sombras mas o excesso das luzes.<br \/>\n\u2013 Adiante caro amigo, levei toda a vida a preparar-me para a obscuridade.<br \/>\n\u2013 Atrevo-me a citar um versejador desaparecido que dizia que todo o poeta \u00e9 um fingidor.<br \/>\n\u2013 Creio que se refere, n\u00e3o por acaso, ao poeta infinito. Obriga-me a ser franco. N\u00e3o o posso negar&#8230; <em>se pudesse ver a minha cara saberia quem sou nesta tarde t\u00e3o estranha<\/em>&#8230;<br \/>\n\u2013 Como v\u00ea n\u00e3o era preciso ser eu a denunciar as contradi\u00e7\u00f5es de que somos feitos. Com o devido respeito \u00e0 sua idade, tenho uma pergunta a fazer-lhe\u2026 suponho que o senhor \u00e9 versado em cultura cl\u00e1ssica\u2026 ao acalentar transpor o abismo entre os mortais e os deuses, que outro castigo esperava sen\u00e3o a cegueira?<br \/>\n\u2013 Agora parece ser o senhor a pecar por falta de alcance de vista. Ter\u00e1 mesmo sido castigo? N\u00e3o foi antes uma magn\u00edfica ironia dos deuses? <em>Com uns olhos sem luz, s\u00f3 posso ler nas bibliotecas dos sonhos<\/em>.<br \/>\n\u2013 Nesse caso, o senhor acha-se no lugar errado. Ao contr\u00e1rio da falsa utopia de Babel, a nossa biblioteca n\u00e3o se constitui por <em>r\u00eaveries<\/em>, \u00e9 fal\u00edvel e limitada. Feita \u00e0 medida da escala humana, na sua ess\u00eancia errante \u00e9 t\u00e3o s\u00f3 a biblioteca necess\u00e1ria para vivermos de olhos abertos, <em>escolhermos a nossa morte e am\u00e1-la<\/em>, uma maneira de dizer que prezamos a vida livre acima de tudo. E posso adiantar-lhe: entre n\u00f3s houve quem em tempos a defendesse <em>com uma faca nos dentes<\/em>!<br \/>\n\u2013 Di-lo com indisfar\u00e7\u00e1vel vaidade&#8230;<br \/>\n\u2013 Por favor senhor, n\u00e3o fomos os primeiros a elogiar os faquistas e os navalheiros de arrabalde! Tempos houve em que um mestre das <em>fic\u00e7\u00f5es<\/em> gostava de evocar os baldios, onde pululavam <em>criolos<\/em> que enfeiti\u00e7avam as pampas&#8230;<br \/>\n\u2013 Escutando-o d\u00e1 a impress\u00e3o de que tudo \u00e9 uma imensa cat\u00e1strofe e que Babel \u00e9 um monstro!<br \/>\n\u2013 Esse fantasma n\u00e3o nos tira o sono, se \u00e9 isso que pretende insinuar. Quem espera ver tudo nada v\u00ea, nem sequer se enxerga a si mesmo.<br \/>\n\u2013 E no entanto diria ser uma bola de cristal\u00b9 o que daqui adivinho sobre aquela mesa a um metro de n\u00f3s.<br \/>\n\u2013 Ah! \u00c9 uma ironia da Finita! N\u00f3s aqui, enfiados no fundo desta cave, limitamo-nos a ver o mundo atrav\u00e9s do buraco de uma agulha, por isso n\u00e3o ceg\u00e1mos. Tal como o pensamento \u00e9 in\u00fatil se n\u00e3o podemos agir sobre a nossa sina, uma biblioteca imortal, cujo destino est\u00e1 pr\u00e9-determinado a conter todos os livros, \u00e9 de igual modo uma biblioteca in\u00fatil ao pensamento. Entre os chocolates e a metaf\u00edsica h\u00e1 um mundo para viver e \u00e0 espera da nossa ac\u00e7\u00e3o, por mais que o sol e a lua (e a tabacaria!) joguem contra a nossa sorte.<br \/>\n\u2013 Admiro a sua esmerada dilec\u00e7\u00e3o pelos paradoxos. Mas nem a ideia de uma biblioteca integral a todos destinada merece a sua considera\u00e7\u00e3o?<br \/>\n\u2013 Nunca o vi t\u00e3o democr\u00e1tico\u2026 e n\u00e3o se desculpe com a estat\u00edstica, como faz o Ocidente. O problema n\u00e3o \u00e9 que todos os livros chegassem a estar ao alcance de todos, mas ter-se fabricado uma massa ingente de leitores, melhor dito, de pretensos leitores, incapazes de distinguir uma obra de um tijolo ou, mais dram\u00e1tico, de dar-lhes o devido uso, \u00e0s obras e aos tijolos. Em todo o caso, o megal\u00f3mano mundo sem mem\u00f3ria nem tempo de Babel conduz \u00e0 actual era do instante perp\u00e9tuo e produz no racioc\u00ednio humano um efeito semelhante \u00e0quele que a sociedade de consumo origina no es\u00f3fago e na mente p\u00f3s-moderna: primeiro, ataque de bulimia, depois, crise de t\u00e9dio, para acabar tudo em ressaca e depress\u00e3o. O ciclo retoma e basta-se a si mesmo.<br \/>\n\u2013 Interessante\u2026 Relatos fidedignos, confirmam-no: as taxas de suic\u00eddio em Babel destronam a Baixa-Lusit\u00e2nia, na\u00e7\u00e3o dos inenarr\u00e1veis saudosos.<br \/>\n\u2013 Por falar em analogias, a Biblioteca do Universo n\u00e3o \u00e9 mais do que a promessa que o Boy-Mor de Chicago fez aos Alacalufe, \u201cconsumam, consumam, que o mundo vai acabar\u201d. E h\u00e1 mentiras asquerosas que a experi\u00eancia social capitalista converte em verdades fatais.<br \/>\nO leitor fez um compasso de espera. L\u00e1 fora, ouvia-se o grito das gaivotas. Nesse fim de tarde, havia um incessante vaiv\u00e9m de aves mar\u00edtimas, que subiam dos rochedos escuros, varridos l\u00e1 em baixo pelas vagas do Atl\u00e2ntico.<br \/>\nA biblioteca ficava num subterr\u00e2neo e a luz que assomava pelos postigos entrava de forma obl\u00edqua, derramando-se sobre as paredes, as estantes e o ch\u00e3o. O velho, que segundo sabemos vivia na penumbra, s\u00f3 agora se apercebia que aquela figura mi\u00fada com quem falava se tratava afinal de uma crian\u00e7a. Pertencia esta a uma linhagem vulgar n\u00e3o obstante rara entre o povo em extin\u00e7\u00e3o dos Finitos\u00b2, cujo lema era que os <em>esfomeados n\u00e3o sonham s\u00f3 com p\u00e3o<\/em>. A crian\u00e7a continuou:<br \/>\n\u2013 Al\u00e9m disso, podemos intuir um elo entre o perfeccionismo t\u00e9cnico da Babel e o analfabetismo equipado da massa de leitores dos tempos actuais. T\u00e9cnica e civiliza\u00e7\u00e3o, as cores da inf\u00e2mia! J\u00e1 n\u00e3o bastava a ilus\u00e3o metaf\u00edsica da Babel, para ela se ter convertido numa met\u00e1fora da sociedade do hiper-byte! Repare como a ideia da biblioteca total se assemelha a esse frenesi que hoje leva as pessoas a n\u00e3o quererem perder pitada de tudo e mais alguma coisa e que as faz estar ligadas a todo o instante a um absoluto que \u00e9 in\u00fatil porque humanamente inating\u00edvel e que n\u00e3o preenche o vazio do comum dos mortais. Pelo contr\u00e1rio, aprofunda-o. A\u00ed se v\u00ea como o neur\u00f3tico desejo de eternidade \u00e9 uma perda de tempo.<br \/>\nUma cilada aonde as pessoas n\u00e3o fazem mais do que passear a sua ilus\u00f3ria liberdade de movimentos.<br \/>\n\u2013 Come\u00e7o a dar-lhe raz\u00e3o! <em>Mea culpa<\/em>! \u2013 Rindo pela primeira vez, o velho homem, atirou, em tom jocoso: \u2013 Vai dizer-me que para recuperar a vis\u00e3o n\u00e3o tenho mais que ler a vossa biblioteca?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o temos por h\u00e1bito fazer promessas!<br \/>\n\u2013 Fico sem palavras. Ser\u00e1 ent\u00e3o uma crian\u00e7a a ensinar-me a reler o mundo e a governar o meu olhar&#8230;<br \/>\n\u2013 N\u00e3o leve isso a peito&#8230; s\u00f3 por eu estar aqui \u00e0 sua frente! Ou por outra, olhe antes para si. \u00c9 que, passe o lugar comum, a crian\u00e7a mora em cada um de n\u00f3s. Mister \u00e9 dar por ela, mesmo se est\u00e1 ao alcance de poucos dela n\u00e3o se apartar.<br \/>\n\u2013 Se me permite a franqueza, n\u00e3o \u00e9 o meu caso pessoal de cegueira que aqui me traz. Com isso, conformei-me. \u00c9 in\u00fatil vencer o sono. O meu remorso \u00e9 outro.<br \/>\n\u2013 Confesso que isso j\u00e1 me tinha passado pela mente, seria contradi\u00e7\u00e3o demasiado \u00f3bvia: a que prop\u00f3sito viria um cego a uma biblioteca? Mas ent\u00e3o, a que se devem tantos rodeios?<br \/>\nO velho olhou em volta como se procurasse onde sentar-se. Parecia que se preparava para falar por longo tempo.<br \/>\nEra um homem consumido, de pele glauca. Acabou por fincar as duas m\u00e3os na bengala, porque notoriamente j\u00e1 mal se tinha nas pernas.<br \/>\n\u2013 De h\u00e1 muito que percebi que Babel foi uma ilus\u00e3o. Sabe, facilmente aceitamos o del\u00edrio, acaso porque intu\u00edmos que nada \u00e9 real. Nas origens, foi como um deus que criasse o cosmos e logo o caos. A febre e a magia consumiram muitas almas que codiciavam a eternidade na Biblioteca do Universo. Foram morrendo os dias e com os dias os anos.<br \/>\nAt\u00e9 que aceitei que a ilus\u00e3o de Babel e a loucura a que me sujeitei resultavam da minha incapacidade para aceitar a imperfei\u00e7\u00e3o humana e a nossa condi\u00e7\u00e3o mortal.<br \/>\n\u2013 Vejo que o que vai dizer-me o inquieta&#8230;<br \/>\n\u2013 Ando atormentado por um pesadelo: rescrever e recopiar todas as frases de todas as obras da Biblioteca Finita numa obra s\u00f3!<br \/>\nA crian\u00e7a riu-se num arranque s\u00fabito, mas o riso logo se desfez em virtude do choque que aquele pensamento lhe produzia. Horrorizada pela \u00edndole intelectual daquela proposta e transida por um arrepio que lhe percorreu a espinha at\u00e9 lhe vencer a base da nuca, a crian\u00e7a parecia hesitar:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o posso falar pelos demais criadores da Finita, mas ningu\u00e9m tem o poder de separar-me dos meus. Que outros se perguntem de onde vem tal aud\u00e1cia, o que seria por bem designar de ins\u00eddia!<br \/>\n\u2013 Diz-me ent\u00e3o que tenho de me haver com o desencanto?<br \/>\n\u2013 Nada justifica o seu af\u00e3 senhor. A sua ideia de refazer a Babel infinita pela Biblioteca Finita \u00e9 ainda uma vertigem liter\u00e1ria. Al\u00e9m disso, havemos de ter aprendido algo com <em>a caminhada<\/em>&#8230;<br \/>\n\u2013 Tenho uma predilec\u00e7\u00e3o por enigmas, mas podia ser mais claro?<br \/>\n\u2013 Se n\u00e3o imit\u00e1mos os outros na busca da imortalidade, por que raio nos hav\u00edamos agora de repetir, correndo o risco de a n\u00f3s mesmos nos imitarmos?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o descarte j\u00e1 essa carta do baralho&#8230; e tenha em devida conta que o passado \u00e9 a \u00fanica dimens\u00e3o do tempo que podemos controlar em pleno&#8230;<br \/>\n\u2013 Agora \u00e9 a minha vez de repetir as suas palavras: acaso podia ser mais claro?<br \/>\n\u2013 Deixemos a decifra\u00e7\u00e3o do enigma seguir o seu pr\u00f3prio curso&#8230;<br \/>\nO sol declinava. As gaivotas apertavam o c\u00edrculo do seu voo. As \u00e1guas deviam engrossar nos baixios. Nos dias de ventania, chegava-se a ouvir o marulho da rebenta\u00e7\u00e3o a ganhar a fal\u00e9sia e a soprar pelo casario nas costas da biblioteca.<br \/>\n\u2013 E o brio, pela biblioteca que criaram?<br \/>\n\u2013 Digamos que sentimos orgulho por ela se constituir numa <em>brev\u00edssima rela\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o<\/em> de outras\u00a0bibliotecas&#8230; Dito de outro modo, todas as bibliotecas precisam da nossa e a nossa dispensa todas as outras!<br \/>\n\u2013 Sem o adivinhar acaba de parafrasear o lema da sociedade da Cidade dos Imortais, de forte tradi\u00e7\u00e3o zenaica, posteriormente adoptada pela seita dos bibliotec\u00e1rios \u201cmon\u00f3tonos\u201d. Poderei ver a\u00ed um ind\u00edcio de que come\u00e7a a ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o que lhe propus?<br \/>\n\u2013 Caro senhor, j\u00e1 lhe disse, a nossa pequena sociedade n\u00e3o \u00e9 um espect\u00e1culo! Desconhe\u00e7o essa divisa, mas n\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o que a secreta Cidade dos Imortais come\u00e7a no Jardim de Tebas, onde o que reinou e cobriu a m\u00e3e veio a vazar os pr\u00f3prios olhos!<br \/>\n\u2013 Um tra\u00e7o em comum guardam v\u00f3s com os imortais: sois invulner\u00e1veis \u00e0 condescend\u00eancia!<br \/>\nA crian\u00e7a n\u00e3o resistiu a fazer uma careta.<br \/>\n\u2013 Zen\u00e3o est\u00e1-nos em devida conta, e por ele come\u00e7\u00e1mos o nosso di\u00e1logo, mas preferimos os cangaceiros, os piratas e at\u00e9 certas tr\u00edades do extremo Oriente. Para seu contento, cometo a inconfid\u00eancia de dizer-lhe que uma corrente minorit\u00e1ria, que defende a pedarquia da Biblioteca Finita, n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 contrafac\u00e7\u00e3o se esta cultivar a revolta.<br \/>\n\u2013 O que seria crime.<br \/>\n\u2013 Um crime exemplar, se me permite a vaidade. Antes, por\u00e9m, haveria que provar a sua tese de h\u00e1 pouco sobre a vanidade. N\u00e3o j\u00e1 em termos concretos, como o senhor insiste em fazer, mas nas suas implica\u00e7\u00f5es gerais. A saber: se tal como entre os humanos, uma biblioteca sem fim n\u00e3o \u00e9 mais do que apar\u00eancia e v\u00e3 ilus\u00e3o\u2026 d\u00ea-se o senhor ao trabalho de o averiguar, agarre-se ou n\u00e3o ao consolo dos versos de Milton que h\u00e1 instantes citou!<br \/>\n\u2013 Talvez esse crime perfeito seja a chave do enigma e guarde verdades por muito tempo ignoradas. Quanto \u00e0 sua sugest\u00e3o, n\u00e3o ponha de parte que me houvesse antecipado \u00e0 sua recomenda\u00e7\u00e3o. Mas diga-me, as obras da Biblioteca Finita, apresentadas como isentas de eternidade, n\u00e3o perduram elas mais que o vosso povo?<br \/>\n\u2013 Nem tudo \u00e9 assim t\u00e3o simples, nisso dou-lhe raz\u00e3o. E serei o \u00faltimo a negar as complexidades que guardamos.<br \/>\nDigo-lhe mais, se acaso uma ou outra obra vier a ser ferida de imortalidade, no meu \u00edntimo, essa condi\u00e7\u00e3o, a existir, n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a liberdade dos nossos actos. Quer isso apenas dizer que h\u00e1 gente que al\u00e9m de n\u00f3s e para l\u00e1 de n\u00f3s preza a intelig\u00eancia entre a mis\u00e9ria e o naufr\u00e1gio das sociedades.<br \/>\n\u2013 H\u00e1 instantes dizia-me que n\u00e3o lhes agrada a repeti\u00e7\u00e3o mas esse t\u00f3pico do afundamento, <em>do povo do abismo<\/em>, \u00e9 o mesmo da decad\u00eancia do Ocidente desde a queda do Imp\u00e9rio Romano\u2026 nada de novo, portanto. At\u00e9 a um velho como eu esse tema aborrece.<br \/>\n\u2013 Percebo onde quer chegar, mas n\u00e3o se afogue em t\u00e3o pouca \u00e1gua. A decad\u00eancia n\u00e3o vem a ser <em>a queda<\/em> mas o imp\u00e9rio, seja ele qual for. Quanto ao tema da repeti\u00e7\u00e3o, equivoca-se. \u00c9 o tempo que ao n\u00e3o mudar na sua subst\u00e2ncia opressiva e desumana se encarrega de actualizar a nossa revolta. A sua proposta de rescrevere e recopiar todas as frases de todas as obras da Biblioteca Finita numa s\u00f3 obra est\u00e1 ali\u00e1s contaminada pelo signo da \u00e9poca. Trabalhar noite e dia!<br \/>\nAl\u00e9m de implicar <em>os fins do sono<\/em> e um estado de vig\u00edlia permanente, produzir sem fim seria uma conspira\u00e7\u00e3o permanente contra a Biblioteca Finita e j\u00e1 n\u00e3o contra o mundo. Maior heresia n\u00e3o acharia nesta casa!<br \/>\nNum gesto de espanto, o velho fez men\u00e7\u00e3o de brandir no ar a sua bengala, mas o movimento n\u00e3o se completou.<br \/>\n\u2013 A rebeldia est\u00e1-lhe no sangue! Pergunto-me de onde vem a consci\u00eancia do sagrado do povo da Finita. H\u00e1-de concordar que ao predicarem o caos absoluto, ou mesmo ao fazerem a apologia do caos, a voca\u00e7\u00e3o herege que demonstram parece esconder a cren\u00e7a milenarista num homem novo capaz de restaurar outro tipo de sociedade.<br \/>\n\u2013 A restaura\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a nossa praia. Exorbita da nossa compet\u00eancia! N\u00e3o nos queira compreender demasiado depressa&#8230; De uma coisa estamos certos, tamb\u00e9m n\u00e3o pretendemos ser <em>experts<\/em> em originalidade, essa tara pr\u00f3pria dos p\u00f3s-modernos. N\u00e3o comerciamos esse tipo de ideias <em>gourmet<\/em>. Brincando com as palavras, se n\u00e3o est\u00e1 ao nosso alcance obrar milagres e cozinhar a chuva, ao menos semeamos a revolta dos defraudados. <em>Vade mecum<\/em>!<br \/>\n\u2013 Terei todo o gosto em ir consigo se aceitar que me sente e escutar o que tenho a dizer-lhe com a mesma aten\u00e7\u00e3o que me tem vindo a dispensar.<br \/>\n\u2013 \u00c9 homem para merecer esse favor, e outros mais que lhe aprazam.<br \/>\nA crian\u00e7a virou costas e aos saltitos internou-se na galeria, galgou um lance de escadas e procurou um banco.<br \/>\nOlhou para a rua atrav\u00e9s do postigo da ala central. J\u00e1 se n\u00e3o distinguia o bulir do vento do clamor das gaivotas. L\u00e1 em baixo, as encostas e as vagas eram t\u00e3o anteriores ao ser humano que a sua antiguidade aterrava qualquer um, de coragem e cobardia. A crian\u00e7a regressou ao \u00e1trio e colocou o banco junto ao homem. O velho sentou-se. Dirigia o seu olhar para a silhueta da crian\u00e7a, mas agora olhava-a como se a n\u00e3o reconhecesse como a mesma pessoa com quem falara desde o instante em que cruzara o lintel da biblioteca. A uns meros passos dela, era como se o velho estivesse longe da crian\u00e7a. E falou:<br \/>\n\u2013 \u00c0 revelia da lei fundamental de Babel, a Biblioteca das Bibliotecas, um bibliotec\u00e1rio oitocentista recuperou a tese herege dos m\u00edsticos da seita dos Trinta que no s\u00e9c. II (d. C.) defendia que em alguma galeria da Biblioteca faltavam as c\u00f3pias da Biblioteca Finita, e que essas obras pretensamente em falta constitu\u00edam a cifra e o comp\u00eandio perfeito de todos os demais livros do Universo. Antes de poder provar a sua hip\u00f3tese, o bibliotec\u00e1rio de origem ga\u00e9lica foi encontrado sem vida em circunst\u00e2ncias at\u00e9 hoje por esclarecer na latrina da galeria sul, no s\u00e9timo andar da Biblioteca. A c\u00e9lebre galeria cuja escadaria se perde num desv\u00e3o a\u00e9reo e que vem a morrer sem chegar a lado nenhum&#8230; Inquisidores haviam maquinado a sua morte. Nem meio s\u00e9culo tinha decorrido da data desse infort\u00fanio, quando por um acaso improv\u00e1vel, corria o ano de 1929, num alfarrabista de Aberdeen, que herdara o esp\u00f3lio de Cartaphilus, antiqu\u00e1rio de Esmirna, vim a deparar-me com um manuscrito inserto no \u00faltimo tomo da <em>Il\u00edada<\/em> de Pope. De imediato percebi que estava na posse de um documento secreto e her\u00e9tico. Toda essa noite a passei em claro. Segundo o m\u00e9todo regressivo advogado pelo bibliotec\u00e1rio assassinado, que viria a ficar conhecido como \u201co Homem Finito\u201d, prodigalizei e consumi os meus anos. Seria mesmo inveros\u00edmil que em algum lugar do Universo houvesse essa Biblioteca Finita e em falta? E onde, perguntava-me eu. Hoje, sei-o bem, mais do que ter acreditado na exist\u00eancia da cifra bastou-me a ideia de ir no seu encal\u00e7o. Nos piores tempos, a gana de descobrir a dita quase que me vedava o sono. N\u00e3o h\u00e1 prazer maior que o pensamento em devaneio, e a ele me entreguei.<br \/>\nA predi\u00e7\u00e3o da seita dos Trinta era uma heresia que manchava a eterna perfei\u00e7\u00e3o de Babel. A fac\u00e7\u00e3o m\u00edstica e minorit\u00e1ria dos Trinta chegou mesmo a aventar que o \u00eaxtase lhes revelava a imagem de uma esp\u00e9cie de c\u00e2mara circular, onde faltava \u201cO Grande Livro\u201d, tamb\u00e9m ele circular e de lombada cont\u00ednua. Era uma apostasia. Tamanha apostasia se afigurava \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da biblioteca total de Babel que essa estranha tese n\u00e3o podia prosperar. Pior. Os m\u00edsticos dos Trinta foram dizimados e qualquer ind\u00edcio da premissa era perseguida pelos Purificadores. Depois do terror, a profecia ficou adormecida pelo sil\u00eancio dos s\u00e9culos. Mesmo as sucessivas linhagens de carrascos dos Purificadores a haviam esquecido. At\u00e9 que \u201co Homem Finito\u201d a resgatou da obscuridade da hist\u00f3ria e o destino quis que o manuscrito que descrevia o herege m\u00e9todo regressivo viesse parar \u00e0s minhas m\u00e3os.<br \/>\nSab\u00edamos por c\u00e1lculos irrefut\u00e1veis que as c\u00f3pias da Biblioteca Finita tamb\u00e9m se achavam algures na infinita Babel. Mas a Biblioteca \u00e9 t\u00e3o imensa que toda a dedu\u00e7\u00e3o de origem humana resulta infinitesimal. A possibilidade de que um bibliotec\u00e1rio as encontrasse \u00e9 comput\u00e1vel em zero. Mas o mist\u00e9rio, o grande mist\u00e9rio n\u00e3o estava a\u00ed! O verdadeiro mist\u00e9rio, \u00e9 que nunca ningu\u00e9m deu pela refuta\u00e7\u00e3o das obras da Finita. Explico-me: n\u00e3o \u00e9 segredo para ningu\u00e9m que, como Babel \u00e9 total, al\u00e9m das c\u00f3pias e das v\u00e1rias centenas de milhar de fac-s\u00edmiles imperfeitos, obras que apenas diferem por uma letra ou por uma v\u00edrgula, h\u00e1 sempre um conjunto ilimitado de volumes ap\u00f3crifos que desdizem o original e que superam em n\u00fameros milesimais cada original. Na Universal, diz-se que por cada obra original existem 1001 vers\u00f5es ap\u00f3crifas&#8230; Acontece que jamais um bibliotec\u00e1rio avistou um s\u00f3 volume que fosse de refuta\u00e7\u00e3o de uma obra da Biblioteca Finita! Nem qualquer m\u00e9todo de c\u00e1lculo, nem os devotos da criptografia, nem os poliglotas que cotejam todas as l\u00ednguas poss\u00edveis, nem as v\u00e1rias seitas de \u00edmpios, dos Papalagui \u00e0 fac\u00e7\u00e3o dos Carmesins, muito menos os inquisidores da Leya e dos Purificadores. Nada! Nenhuma teoria vinha a consentir na descoberta dos volumes de refuta\u00e7\u00e3o. Estranhamente, todos chegaram \u00e0 mesma conclus\u00e3o: n\u00e3o existe nenhuma refuta\u00e7\u00e3o dos originais da Biblioteca Finita. Conclus\u00e3o que adensava a maldi\u00e7\u00e3o da seita dos Trinta&#8230; A ansiedade e a frustra\u00e7\u00e3o multiplicaram toda a sorte de teorias e hip\u00f3teses todas elas inverific\u00e1veis. A nostalgia pela refuta\u00e7\u00e3o da Finita fez-me habituar terrivelmente a um mundo de proposi\u00e7\u00f5es e propor\u00e7\u00f5es abstractas. V\u00e1rias teses advieram, todas fracassaram. \u00c0 excep\u00e7\u00e3o de uma hip\u00f3tese&#8230;<br \/>\nA crian\u00e7a come\u00e7ava a ficar irrequieta, mostrando dificuldade em quedar-se no mesmo s\u00edtio.<br \/>\n\u2013 Queira prosseguir, por favor. Sou todo ouvidos.<br \/>\n\u2013 &#8230;talvez demasiado evidente para ter sido prevista e comput\u00e1vel racionalmente. At\u00e9 hoje por revelar, em segredo vim para a anunciar: as obras da Biblioteca Finita est\u00e3o de facto em Babel, mas consistem precisamente em vers\u00f5es ap\u00f3crifas intencionalmente produzidas pelo povo da Finita! S\u00e3o a refuta\u00e7\u00e3o que toda a gente buscava durante s\u00e9culos e que tom\u00e1vamos pelas c\u00f3pias verdadeiras. Com esta conspira\u00e7\u00e3o t\u00e3o simples quanto inaudita, a vossa seita escapou \u00e0 eternidade e ao infinito jogo do Universo: nem uma s\u00f3 c\u00f3pia da Finita consta afinal da Babel! E nem uma s\u00f3 c\u00f3pia de nenhum original da Finita existe em todo o universo! Sois geniais! O Grande Livro em falta, a cifra e o comp\u00eandio perfeito de todos os demais que aparecia nas alucina\u00e7\u00f5es dos m\u00edsticos dos Trinta, era a obra completa de originais da Biblioteca Finita num s\u00f3 volume!<br \/>\n\u2013 Benza-o Deus!<br \/>\nO velho, que se diria em transe, n\u00e3o escutou o coment\u00e1rio da crian\u00e7a.<br \/>\n\u2013 A Suma teol\u00f3gica nega que Deus possa mudar o passado. S\u00f3 ao humano cabe esse poder, invis\u00edvel e supremamente usado pelo povo Finito. Sois imortais na atroz consci\u00eancia da vossa mortalidade!<br \/>\n\u2013 Disso n\u00e3o morreremos \u2013 disse a crian\u00e7a que n\u00e3o conseguia parar quieta \u2013, nem de imortalidade nem de reten\u00e7\u00e3o das urinas!<br \/>\n\u2013 Entendo agora que s\u00f3 uma crian\u00e7a poderia receber-me&#8230;<br \/>\n\u2013 Acaso, a sua exposi\u00e7\u00e3o, prova que um homem pode estar certo e \u00e9 dever da Biblioteca Finita reconhece-lo.<br \/>\nMas n\u00e3o nos cabe julgar se chegar \u00e0 verdade o deixar\u00e1 em paz, como a n\u00f3s nos apaziguou a traquinice da mentira que engendr\u00e1mos contra o Estado de Babel e que veio hoje aqui desvendar-se.<br \/>\nRepentinamente, dos altifalantes, fez-se ouvir uma vers\u00e3o paraliter\u00e1ria de uma can\u00e7\u00e3o de Tom Z\u00e9: \u201cBorges voc\u00ea t\u00e1 ficando velho\/ser\u00e1 que a Margarida Rebelo Pinto te vai ligar?\u201d.<br \/>\n\u2013 Vejo que \u00e9 tarde.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o se morda de remorsos. <em>Deus tem caspa<\/em>, c&#8217;os diabos! Se lhe serve de consolo lembro-lhe uma cita\u00e7\u00e3o de um homem de letras muito acreditado: \u201cO tempo encarrega-se de fazer as melhores antologias\u201d. Apesar de sermos antimessi\u00e2nicos e de fazermos quest\u00e3o de mandar os messias das v\u00e1rias igrejas pol\u00edticas e filos\u00f3ficas para <em>a cova dos le\u00f5es<\/em>, entregue-se a essa esperan\u00e7a.<br \/>\n\u2013 Acham-se acima do tempo&#8230;<br \/>\n\u2013 Raios me abrasem! A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a Biblioteca Finita estar acima do seu pr\u00f3prio tempo \u2013 ideia que em si carrega algo de c\u00f3mico! Como bem demonstrou, desdenh\u00e1mos a eternidade e conspir\u00e1mos lidimamente contra Babel.<br \/>\nN\u00e3o aceitamos \u00e9 a irresponsabilidade de nos ausentarmos do nosso tempo. Muito menos estamos obrigados a ser t\u00e3o cegos e ign\u00f3beis quanto ele.<br \/>\nUm sil\u00eancio pesado instalou-se por segundos na cave da Finita e outro rumor n\u00e3o se fez sentir do que o vento subterr\u00e2neo passando atrav\u00e9s das gateiras e que pelos corredores e galerias assobiava. Contra os vidros dos postigos, a ventania arremessava com intensidade o guincho das gaivotas que de h\u00e1 muito anunciavam a tempestade. Ali estava aquela crian\u00e7a da Biblioteca Finita olhando o velho, perdido no fundo do banco, dobrado sobre o cajado, os olhos at\u00f3nitos perdidos no vale de olheiras. E ali ficou aquele ser, esmagado pela <em>conjura de saltimbancos<\/em>, um homem esquecido pelo poder dos Finitos, rodeado por todos os entes vivos e por nascer despertados por aquela casa.<br \/>\nUm \u00faltimo raio de luz dardejava na face da crian\u00e7a. Era a vez da crian\u00e7a mostrar impaci\u00eancia, parecendo dan\u00e7ar sem sair do mesmo s\u00edtio. As pernas n\u00e3o paravam um instante.<br \/>\n\u2013 Vai desculpar-me, mas tenho de partir.<br \/>\n\u2013 Compreendo. E amanh\u00e3?<br \/>\nA crian\u00e7a soltou um leve riso de pena pela f\u00e9 daquele homem que tinha \u00e0 sua frente e, sem que nada o exigisse, rematou:<br \/>\n\u2013 O amanh\u00e3? <em>Pela vida<\/em>! O amanh\u00e3 n\u00e3o importa, o presente \u00e9 libertar-me na latrina da cangosta que corre atr\u00e1s da biblioteca. Isso sim \u00e9 sagrado! \u2013 e saiu disparada.<br \/>\nA chuva estalou em lentid\u00e3o poderosa. Ao ganhar a porta, a crian\u00e7a voltou-se para o velho homem e, num gesto de generosidade, deitou-lhe a l\u00edngua de fora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>1 Popularizada de h\u00e1 muito no sub-mundo da cultura bibliotec\u00e1ria, a bola de cristal da Finita \u00e9 conhecida pejorativamente no meio dos Infinitos como \u201c1984\u201d ou \u201ca Grande irm\u00e3\u201d. Um grup\u00fasculo secreto, com liga\u00e7\u00f5es \u00e0 Finita, prefere a designa\u00e7\u00e3o vernacular e carroceira de \u201cobscena passaroca da noite\u201d. Esta terminologia n\u00e3o re\u00fane at\u00e9 hoje consenso entre os finitos. O objecto em causa passa por ser o \u00fanico elemento t\u00e9cnico sofisticado da Finita a par de um conjunto de altifalantes, doado pelo Gr\u00e9mio da Biblioteca dos Ferrovi\u00e1rios do Benim. O artefacto, erroneamente associado \u00e0 cristalomancia, carece do dom de adivinhar o futuro. A fac\u00e7\u00e3o ocultista e aquelarre remete a origem da bola de cristal para os cultos animistas da Lua Desviante, praticados entre os dissidentes do antigo Reino de Oy\u00f4.<\/em><br \/>\n<em>2 Na errata \u00e0 d\u00e9cima segunda reimpress\u00e3o do Aleph (Emec\u00e9 Editores, Buenos Aires, 1970) em alus\u00e3o ao lugar \u201conde habitam os s\u00e1tiros, na\u00e7\u00e3o de homens ferozes e r\u00fasticos, inclinados \u00e0 lux\u00faria\u201d (Cf. nota de remiss\u00e3o a \u201cEl Inmortal\u201d, ibidem), o autor agrega a seguinte correc\u00e7\u00e3o: \u201cComunidade sem Estado, os finitos ou povo da Finita eram atreitos \u00e0 subvers\u00e3o dos usos, costumes e mentalidades\u201d.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mal transp\u00f4s o umbral o velho cruzou-se ali mesmo com o \u00faltimo leitor, que se diria prestes a sair j\u00e1 que no \u00e1trio da biblioteca se achava. 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