{"id":15621,"date":"2021-03-02T11:35:44","date_gmt":"2021-03-02T10:35:44","guid":{"rendered":"https:\/\/stadtsprachen.de\/de\/?post_type=stsp_text&#038;p=15621"},"modified":"2021-03-08T15:48:58","modified_gmt":"2021-03-08T14:48:58","slug":"damas","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/de\/text\/damas\/","title":{"rendered":"Damas"},"content":{"rendered":"<p><b><\/b><b>Round 1<\/b><\/p>\n<p>\u201cNellie Bly foi a primeira mulher a dar a volta ao mundo sozinha\u201d, repetiu em voz alta Carol Shaw, cabelos loiros escorridos a cair sobre o rosto quadrado, antes de tomar mais um gole de seu ch\u00e1 Earl Grey com espuma de leite e sem a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Fazia um frio frustrante. O nevoeiro de ver\u00e3o vestia de branco o azul do c\u00e9u, em Palo Alto. Um pequeno ratinho andava se escondendo no buraco embaixo da escada da casa que Carol dividia com o marido. Ela ajeitou seus \u00f3culos ao perceber que o ratinho a observava. \u201cSe o Ralph n\u00e3o vai fazer nada, mesmo, eu terei que resolver a quest\u00e3o do camundongo sozinha\u201d,\u00a0 pensou a designer, decidida, ao descansar a x\u00edcara no pires de porcelana gravada com uma ilustra\u00e7\u00e3o de lebre.<br \/>\nO pequeno roedor, aparentemente, notou as inten\u00e7\u00f5es da mo\u00e7a e disparou ligeiro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escada. Carol Shaw correu o m\u00e1ximo que p\u00f4de, mas n\u00e3o foi o suficiente. Destrambelhada, quase bateu com a cara na porta da despensa que havia embaixo da escada.<br \/>\nShaw soprou o tufo de cabelo que lhe cobria os \u00f3culos e sentou-se no ch\u00e3o, esticando as pernas. Pela porta entreaberta da dispensa viu um livro que parecia dizer \u201cleia-me\u201d. Ela apanhou a edi\u00e7\u00e3o empoeirada, soprou suas p\u00e1ginas e viu que tratava-se da hist\u00f3ria de uma tal Nellie Bly.\u00a0 \u201cA viagem inspirou o jogo de tabuleiro <i>Round the World With Nellie Bly<\/i>, lan\u00e7ado em 1890. <i>Round the World<\/i> foi o primeiro jogo baseado em not\u00edcias, parido quando Bly era a mulher mais famosa do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Shaw esqueceu o rato por um instante e caminhou, descal\u00e7a, at\u00e9 a mesa onde o ch\u00e1 lhe esperava. A sola descal\u00e7a dos p\u00e9s, refestelando-se no tapete felpudo, f\u00ea-la lembrar que precisava buscar as botas de Ralph no sapateiro. Ficava ao lado da lojinha daquele velho chapeleiro doido, o \u00faltimo do bairro.<\/p>\n<p>O gole de Earl Grey aqueceu-a. Estava trabalhando em um novo projeto de game para a Activision. Depois de passar pela Atari e pela Tandem Computers, recebia seu contracheque da empresa que um dia lan\u00e7aria o jogo <i>Call of Duty<\/i>.\u00a0 A Activision\u00a0 encomendara um game para aquela mulher inusitada que escrevia c\u00f3digos e desenhava pixels.<\/p>\n<p>O jogo de tabuleiro de Nellie Bly fez uma fagulha acender-se dentro de Carol. Nellie tomou 72 dias para completar uma volta no globo, inspirada pelo famoso livro de J\u00falio Verne. A viagem correria mais r\u00e1pida se ela voasse em um avi\u00e3o. Carol rabiscava um monomotor no bloco de notas enquanto pensava em Nellie Bly. Co\u00e7ou o rosto marcado pela acne. \u201cUm jato seria ainda mais eficiente\u201d. Propusera ao chefe a cria\u00e7\u00e3o de uma aventura espacial a la <i>Scramble<\/i>, um sucesso dos fliperamas, mas ele disse que havia muitos jogos de espa\u00e7o no mercado. Shaw passou, ent\u00e3o, a pensar em um cartucho com um barco.<\/p>\n<p><b>Round 2<\/b><\/p>\n<p>O rel\u00f3gio de bolso confirmava: o barco a vapor de Nellie Bly estava atrasado. Sentia-se estranha. H\u00e1 alguns anos era uma menina pobre trabalhando duro como bab\u00e1 e faxineira, agora, adulta, tornara-se a rep\u00f3rter mais famosa dos Estados Unidos da Am\u00e9rica. O tempo na travessia do Pac\u00edfico fora p\u00e9ssimo e, pela primeira vez em toda jornada, Nelly considerou a hip\u00f3tese de que poderia morrer na jornada. \u201cMorrer aos vinte e cinco anos, solteira e sem filhos?\u201d \u00c9, n\u00e3o seria t\u00e3o ruim.<\/p>\n<p>Um senhor, que tinha idade para ser seu pai, n\u00e3o tirava os olhos de Nellie durante toda odisseia rumo a S\u00e3o Francisco. Enviara, inclusive, uma boa garrafa de champanhe para sua cabine. Bly irritou-se com o atrevimento do industrial de bigodes fartos. Naquela noite insone, no entanto, parecia que a garrafa de espumante franc\u00eas dizia-lhe \u201cbeba-me\u201d.<\/p>\n<p>Com certeza o vi\u00favo de posses descobrira quem era a tripulante viajando desacompanhada. A rep\u00f3rter do New York World saboreava o auge do sucesso, as manchetes que escrevia para os jornais at\u00e9 tinham seu nome estampado como s\u00edmbolo de qualidade editorial. As gangues de Nova York, os estivadores do porto, as donas de casa; todos debatiam as investiga\u00e7\u00f5es que Nellie fazia disfar\u00e7ada para o peri\u00f3dico americano. O estopim fora a vez em que passara dez dias infiltrada em um manic\u00f4mio para mulheres. \u201cSe voc\u00ea conseguir descobrir o que acontece por l\u00e1, ganha o emprego\u201d, afirmara-lhe o editor. Fingira-se de louca, ensaiara caretas no espelho e, finalmente, enganara m\u00e9dicos e psiquiatras para denunciar os maus-tratos aos quais moradoras de rua, solteironas, prostitutas e v\u00edtimas de pequenos transtornos mentais, eram submetidas. N\u00e3o sabia se era o balan\u00e7o do mar ou a recorda\u00e7\u00e3o da b\u00f3ia servida no hosp\u00edcio o que lhe enjoava:\u00a0 \u201cA carne estragada, o arroz azedo, os legumes vencidos; um inferno. Como n\u00e3o sair louco dali?\u201d.<\/p>\n<p>O sucesso da reportagem do manic\u00f4mio dera-lhe carta branca para propor pautas ao jornal do senhor Pulitzer. Gostava de acreditar que suas reportagens poderiam mudar o mundo. Escrevia uma por semana; n\u00e3o era pouco. Perdera o pai,\u00a0 imigrante irland\u00eas, e vivenciara a pesada vida oper\u00e1ria. Antes, tivera uma boa educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nunca sentia-se em casa. Culta demais para ser pobre, faminta demais para ser rica. As personagens que vestia para suas reportagens ajudavam-na a encontrar qualquer lugar no mundo. Sua alma estilha\u00e7ada era um quebra-cabe\u00e7a. \u201cDeus explodiu no Big Bang e seus fragmentos formaram estrelas, planetas e pessoas. Eternamente incompletos\u201d. Precisava pensar menos. Seus relatos telegr\u00e1ficos da viagem n\u00e3o estavam encantando tanto os leitores quanto suas imersivas hist\u00f3rias semanais. Seu editor teve, ent\u00e3o, a ideia de criar um jogo, um concurso, onde quem acertasse qual seria o tempo exato que duraria a viagem de Bly ganharia uma viagem com tudo pago para a Europa. A Cosmopolitan at\u00e9 havia mandado uma de suas melhores editoras para tentar dar a volta ao mundo em menos tempo do que Nellie.<\/p>\n<p>Enquanto Bly comprava McGinty, um macaco-caranguejeiro, em sua passagem por Singapura, recebeu um tel\u00e9grafo engra\u00e7ado. Outro jogo! Estavam criando um <i>board game <\/i>\u00a0inspirado em sua viagem. Cada casa do tabuleiro seria equivalente a um dia de sua jornada ao redor do mundo e poderia ser uma casa de \u201csorte\u201d ou uma casa \u201cazar\u201d, representando dias como aquele em que n\u00e3o conseguira telegrafar para o senhor Pulitzer, em Brindisi, porque o operador de tel\u00e9grafo italiano achava que Nova York n\u00e3o existia.<\/p>\n<p>Fazia sentido. Afinal, o que era Nova York no ano 267 a. C., quando Brindisi fora conquistada pelos romanos? Nem a \u201cVelha York\u201d, nos Pa\u00edses Baixos, existia ainda naqueles tempos. \u201cMeu pai irland\u00eas e eu estadunidense\u2026 O que isso significa? Caos. Quest\u00f5es de sorte e azar. Um jogo.\u201d A ideia do jogo inspirado em sua viagem n\u00e3o era t\u00e3o est\u00fapida assim, talvez fosse uma forma at\u00e9 melhor de representar sua travessia. Mais honesta do que um texto com come\u00e7o, meio e fim. A vida como rolar de dados, fases que se vencem e se repetem. O game over que explode inesperado.<\/p>\n<p><b><br \/>\n<\/b><b>Round 3<\/b><\/p>\n<p>O nariz de Carol Shaw parecia diferente diante do espelho da cozinha. Sua chefia na Activision adorara a ideia do novo jogo que ela desenvolvia sozinha no escrit\u00f3rio: \u201cRiver Raid\u201d. Ralph, seu marido, n\u00e3o dera muita bola. Estava muito ocupado desenvolvendo um novo algoritmo de criptografia. \u201cSeus jogos s\u00e3o muito bonitinhos, querida\u201d, dizia Ralph.<\/p>\n<p>A pele coberta pela acne estava l\u00e1, os \u00f3culos eram os mesmos, a p\u00e9ssima postura que irritava sua m\u00e3e tamb\u00e9m. Mas algo mudara, definitivamente, no semblante de Shaw e ela n\u00e3o conseguia decifrar o que era. A designer de games ficou olhando profundamente dentro dos pr\u00f3prios olhos. Ralph passou por ela para fazer uma x\u00edcara grande de caf\u00e9 na cozinha. \u201cQuerida, voc\u00ea lembrou de comprar o leite?\u201d. Shaw n\u00e3o ouviu. Passara tanto tempo embrenhada no c\u00f3digo do seu jogo de combate, estrelado por um avi\u00e3o-ca\u00e7a, que esquecera-se das compras do supermercado e da lavandeira.<\/p>\n<p>Pobre, Ralph, andava atarefad\u00edssimo. Consumia suas madrugadas lendo artigos sobre criogenia, a t\u00e9cnica de congelar corpos para serem ressuscitados no futuro. Walt Disney era um entusiasta da criogenia. Ralph adorava Disney e n\u00e3o tinha l\u00e1 muito espa\u00e7o na agenda para as compras da casa. \u201cPreciso passar menos horas no escrit\u00f3rio\u201d, pensou Carol.<\/p>\n<p>O gato preto do vizinho, trepado no galho de um velho bordo, parecia sorrir, camuflado na noite. Aquelas estrelas sempre estiveram\u00a0 ali no c\u00e9u de Palo Alto? Desde os tempos em que a cidade e toda Bay Area fora terra dos povos Ohlone? Aquelas acnes sempre estiveram em sua pele? Desde quando resolvia equa\u00e7\u00f5es de matem\u00e1tica, por divers\u00e3o, na garagem dos pais?<\/p>\n<p>No espelho de Shaw, a designer de jogos viu o rosto de Nellie Bly dizendo-lhe algo, os l\u00e1bios movendo-se mudos. Sua voz sa\u00eda de tr\u00e1s para frente, incompreens\u00edvel. \u201cH\u00e1 algo de meu naquela mulher\u201d. Jabberwocky.<\/p>\n<p><b><br \/>\n<\/b> <b>Bonus Stage<\/b><\/p>\n<p><i>Cinco anos depois de dar a volta ao mundo em 72 dias, Nellie Bly, 31, casou-se com o milion\u00e1rio Robert Seaman de 73 anos. Ela abandonou o jornalismo por anos, at\u00e9 que a crise gerada pela Primeira Guerra Mundial a obrigasse a voltar ao velho trabalho.\u00a0<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>\u201cRiver Raid\u201d foi lan\u00e7ado em 1982 e vendeu um milh\u00e3o de c\u00f3pias, rendendo boas reservas a Carol Shaw. Shaw deixou a ind\u00fastria de games pouco depois e se aposentou, precocemente, em 1990.<\/i><\/p>\n<p><b><br \/>\n<\/b><b><br \/>\n<\/b><b>Desamparo (trechos do meu primeiro romance)<\/b><b><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Fred Di Giacomo<\/i><\/p>\n<p><b>O come\u00e7o<\/b><b><br \/>\n<\/b> <b>\u201c<\/b>Foi de cara na merda que aconteceu a primeira morte de Manoel Antero dos Santos. A morte que seus inimigos gostam de lembrar e que foi rememorada em marchinhas jocosas, trocadilhos maldosos e pequenas notas nos jornais de oposi\u00e7\u00e3o das cidades que semeou pelo sert\u00e3o da Noroeste. Bandeirante tardio, Manoel foi dos desbravadores audazes que tiraram a virgindade das nossas \u00faltimas matas \u2013 mesmo que um tanto \u00e0 for\u00e7a, \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Foi de cara na merda que Manoel caiu, desorientado, ao sair apressado de um trem na esta\u00e7\u00e3o Santo Andr\u00e9, que o levava, no distante ano de 1929, em dire\u00e7\u00e3o aos sub\u00farbios da capital paulista. Manoel estava envelhecido; pegara o trem no sentido contr\u00e1rio ao do litoral paulista, onde morava. Havia perdido uma grande disputa judicial que envolvia os cinquenta mil alqueires da fazenda Aguape\u00ed (&#8230;), na qual investira a maior parte de sua fortuna de pol\u00edtico pioneiro. Fora seu \u00faltimo ato como personagem principal na chegada do progresso \u00e0s terras descobertas outrora por Maria Francisca e seu cl\u00e3 dos Capa Negra.<\/p>\n<p>Nos tempos da primeira morte, Manoel j\u00e1 havia se mudado de Desamparo para S\u00e3o Vicente, mais perto do F\u00f3rum de S\u00e3o Paulo onde se travava a \u00faltima batalha judicial do nosso astuto r\u00e1bula. Estava de volta ao mar, depois de navegar por anos o oceano verde de campos e cerrados do sert\u00e3o, onde se perdera em busca de fortuna. N\u00e3o passara \u2013 ao contr\u00e1rio do que propagam seus detratores at\u00e9 hoje \u2013 seus \u00faltimos dias sozinho numa poltrona imunda, abandonado em uma pens\u00e3o de terceira categoria, em S\u00e3o Vicente. N\u00e3o morrera suicidado, nem seu corpo demorara tr\u00eas dias \u2013 servindo de banquete aos vermes \u2013 para ser encontrado. Sua segunda esposa ainda o amava e desfrutava do mesmo teto no litoral paulista. Am\u00e9lia Capitolino Santos &#8211; que viria a falecer em Pelotas, anos adiante &#8211; foi viajar pouco depois da queda acidental de Manoel para poder comparecer \u00e0s n\u00fapcias do irm\u00e3o, na distante Birigui.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil para Manoel \u2013 mesmo agora que morto e enterrado \u2013 jurar que a queda no escoadouro de esgoto, ao saltar do trem errado, n\u00e3o tenha sido uma forma volunt\u00e1ria de livrar o corpo do gigantesco peso que arrastava nas costas desde que nascera no Rio de Janeiro, no Largo da Carioca. A batalha contra o universo j\u00e1 havia sido longa demais. Quando saltou do trem, ainda em movimento, ao perceber que havia pegado o sentido contr\u00e1rio, lembrou dos kaingangs passados a fogo, dos frades capuchinhos que acalmara \u00e0 bala, das pechinchadas terras que outrora pertenceram a Modesto Moreira e Maria Chica e, claro, de Helena enlouquecendo pouco a pouco por sua culpa.<\/p>\n<p>A segunda morte de Manoel foi muito menos liter\u00e1ria e por isso ocupar\u00e1 pouco espa\u00e7o nesta narrativa. Consta em sua certid\u00e3o de \u00f3bito que no dia 17 de maio de 1929 \u2013 poucos dias depois de dar de cara na merda, Manoel faleceu, em casa \u2013 d\u2019um colapso card\u00edaco em consequ\u00eancia de hemoptise, ou tosse com sangue, como diziam os populares naquela \u00e9poca. As costelas quebradas haviam perfurado os pulm\u00f5es t\u00edsicos do velho Manoel, que morrera engasgado no pr\u00f3prio sangue. Foi ir\u00f4nico que no final de tudo, tendo escapado do tacape dos kaingangs e dos bala\u00e7os dos capangas de Eros Afrod\u00edsio, Manoel tenha sido espetado mortalmente por seus pr\u00f3prios ossos.<\/p>\n<p>Esmeralda, a criada, avisou a vi\u00fava Am\u00e9lia por telegrama sobre a morte do marido. Esta voltou para S\u00e3o Vicente o mais r\u00e1pido que p\u00f4de, depois de prestigiar as bodas do irm\u00e3o, de visitar o Salto do Avanhandava e de carregar, para o litoral, meia d\u00fazia de bem-casados e um ja\u00f3 na gaiola \u2013 p\u00e1ssaro que pouco voa, mas cujo canto \u00e9 dos mais belos do sert\u00e3o paulista. (&#8230;)<br \/>\n<b>O fim\u00a0<\/b><\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) Povo diz que diabo puxou o p\u00e9 dele, veio cobrar-lhe d\u00edvida. Ningu\u00e9m pactua, colhe louros, lambuza-se sem pagar. Mas diabo existe? Existe s\u00f3 se for o pai carnal, o contra-Deus terreno. No fim, blasfemo, todos filhos do sert\u00e3o que, como eu, tiveram pai fantasma, talvez sejam filhos dele &#8211; o mal\u00e9fico. Ou talvez ele seja o primeiro de n\u00f3s. Pobre estrela, expulsa do para\u00edso por rebelar-se. Substitu\u00eddo, pois, pelo ca\u00e7ula-Cristo. Eu n\u00e3o, o que eu vi, ningu\u00e9m apaga. Santos caiu do trem porque finalmente viu esp\u00edrito. Viu o que sempre quisera: a alma do velho pai sem rosto. Legi\u00e3o de velhos posseiros das Terras de Maria Chica. Cramunh\u00e3o? Talvez. (&#8230;)<\/p>\n<p>Se sua ambi\u00e7\u00e3o era ser maior que a vida, escrever seu nome na rocha que resiste em se tornar areia na ampulheta do tempo, legar ao futuro a prova de que o homem \u00e9 maior que o cosmos e que nossas a\u00e7\u00f5es t\u00eam sentido e influ\u00eancia na m\u00e1quina do mundo, fracassou miseravelmente. (&#8230;)<br \/>\nA vida \u00e9 uma longa peregrina\u00e7\u00e3o pelo deserto da alma, jornada aleat\u00f3ria onde encontramos uma caravana de espectros; reflexos caleidosc\u00f3picos. No final desta sacra prociss\u00e3o, na melhor das hip\u00f3teses, conhecemos bem algu\u00e9m cujo nome \u00e9 legi\u00e3o; espelho acumulado de fantasmag\u00f3ricos fragmentos. (&#8230;)<\/p>\n<p>Minha cidade foi minha hist\u00f3ria e ela teve o tamanho, mesquinho, de minhas ambi\u00e7\u00f5es. Chorei em luto pelos ja\u00f3s, pacas, estrelas e jequitib\u00e1s. Chorei em luta por Nind\u00e1, Giovanni, Maria Chica e Modesto. O dil\u00favio salgado escapava com tamanha f\u00faria dos meus olhos, que achei que fosse arrancar meus gl\u00f3bulos. Me animei com a possibilidade; nunca mais enxergar seria imensa b\u00ean\u00e7\u00e3o. Mas o destino \u00e9 t\u00e3o cruel que a partir dali comecei a enxergar ainda mais. Vi o passado, vi o futuro, vi o distante e vi o n\u00e3o dito; vi o que se soterrou debaixo dos tapetes da mem\u00f3ria e vi o que se quis dizer, mas n\u00e3o foi poss\u00edvel nos tempos mortos. Tornei-me curva pelo peso de toda verdade que acumulei em minhas costas. Uma luz intensa fez-me l\u00facida. Estava morrendo? (&#8230;)<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que vim at\u00e9 aqui (&#8230;) para lhes contar esta longa hist\u00f3ria triste e pedir-lhes, com f\u00e9 no futuro do mundo(&#8230;), que voc\u00eas impe\u00e7am essa guerra que amea\u00e7a come\u00e7ar. Que voc\u00eas impe\u00e7am essa tempestade que as nuvens negras em meus olhos anunciam como fim de muita coisa que vive. Que impe\u00e7am que o sangue continue a temperar os solos desbravados pelo homem. Que a morte deixe de ser nossa principal moeda de convencimento. E que a dor de enxergar demais, e de viver o que os outros sofrem, deixe de ser meu fardo.<\/p>\n<p>Apesar de tudo tenho um fio de esperan\u00e7a no futuro. Um fio no qual me agarro com meus grossos dedos enrugados e que me mant\u00e9m aqui, lembrando de todos os meus mortos. \u00c9 imposs\u00edvel, que nos dias que vir\u00e3o, essas hist\u00f3rias sigam a se repetir em uma farsa tr\u00e1gica. Pelo menos \u00e9 o que preciso acreditar para escapar do desespero. Meus olhos doem. Cora\u00e7\u00e3o sangra. Ando exausta de morrer.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Round 1 \u201cNellie Bly foi a primeira mulher a dar a volta ao mundo sozinha\u201d, repetiu em voz alta Carol Shaw, cabelos loiros escorridos a cair sobre o rosto quadrado, antes de tomar mais um gole de seu ch\u00e1 Earl Grey com espuma de leite e sem a\u00e7\u00facar. Fazia um frio frustrante. 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