{"id":18417,"date":"2022-05-17T16:55:20","date_gmt":"2022-05-17T14:55:20","guid":{"rendered":"https:\/\/stadtsprachen.de\/de\/?post_type=stsp_text&#038;p=18417"},"modified":"2022-06-17T20:10:32","modified_gmt":"2022-06-17T18:10:32","slug":"os-pirilampos-voltam-ao-montes","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/de\/text\/os-pirilampos-voltam-ao-montes\/","title":{"rendered":"Os pirilampos voltam ao montes"},"content":{"rendered":"<p>Acompanhamos a \u00abevolu\u00e7\u00e3o canibal da economia mundial\u00bb. N\u00e3o existe nenhum ponto da terra e do mar que n\u00e3o tenha sido assimilado \u00e0 geopol\u00edtica humana da modernidade. Da conquista de Ceuta em 1415 \u00e0 actual vala de Ceuta, s\u00e3o seiscentos anos de sangue derramado. Heran\u00e7a da cultura ocidental, a modernidade foi o empreendimento acelerado de domina\u00e7\u00e3o do mundo e de extors\u00e3o da espiritualidade (e magia) humana. Submetido a um processo de racionaliza\u00e7\u00e3o e de tecnifica\u00e7\u00e3o, tudo foi reduzido ao c\u00e1lculo, ao discurso, \u00e0 espectaculariza\u00e7\u00e3o. Os impactos antropog\u00e9nicos nos sistemas de vida, ar, \u00e1gua e terra, s\u00e3o agora vis\u00edveis e mensur\u00e1veis. Quanto a n\u00f3s, entregues \u00e0 acultura\u00e7\u00e3o de sonhos fabricados pela <em>slotmachine<\/em> da media e da tecno-ci\u00eancia, legislados pelo poder lucrativo que a alimenta, experimentamos permanentes processos de hipnose e aliena\u00e7\u00e3o, que amenizam a nossa ang\u00fastia, ao mesmo tempo que assistimos \u00e0 cat\u00e1strofe do nosso desaparecimento enquanto seres humanos.<br \/>\nTemos de aprender a morrer no Antropoceno. Regressar ao fundo humano e \u00e0 carca\u00e7a animal. Imperman\u00eancia, transitoriedade, perecimento. O neo-animismo tem um caminho que mal se consegue lobrigar para desaprendermos a ins\u00eddia da <em>Hist\u00f3ria Universal da Inf\u00e2mia<\/em>&#8230;<br \/>\nComo pensar nas condi\u00e7\u00f5es de soberania num mundo profanado? Como exaltar os meios atrav\u00e9s dos quais permanecemos ancorados \u00e0 nua continuidade do nosso \u201cser\u201d e \u201cnatureza\u201d? Essa parte solar e vital, indivisa e dionis\u00edaca, que s\u00f3 \u00e9 sombra e treva sob a luz das Luzes, da escatologia crist\u00e3 e do n\u00edquel da Bolsa<br \/>\nde Valores das Wall Street&#8230;<\/p>\n<p>Para l\u00e1 da Hist\u00f3ria erudita, arquivo de fic\u00e7\u00f5es, fundada nas batalhas, nos tratados, na cronologia do poder e dos ciclos de vida material, convoca-se a infra-narrativa, a bondade animal da vagina das ialorix\u00e1s e das bruxas, a comunica\u00e7\u00e3o das <em>\u00e1guas<\/em> dos candomblecistas e dos chocalheiros, a viv\u00eancia selvagem dos palmarinos e dos ludditas, o la\u00e7o entre pol\u00edtica e espiritualidade das putas-prolet\u00e1rias e da minha av\u00f3&#8230;<br \/>\nconvocam-se as camadas subterr\u00e2neas onde pulsa a exist\u00eancia e os devires-revolu\u00e7\u00e3o dos seres an\u00f3nimos. Essa banalidade que afinal de contas \u00e9 o \u00fanico vest\u00edgio de um verdadeiro existir. Seres destitu\u00eddos historicamente pelo triunfo da racionalidade ocidental, que organiza a vida num regime de serialidade e de<br \/>\natomiza\u00e7\u00e3o, de aniquilamento f\u00edsico e espiritual.<\/p>\n<p>N\u00e3o se limita este repto a lan\u00e7ar uma cr\u00edtica feroz \u00e0s matrizes do capitaloceno e do antropoceno, para desconstruir os regimes de poder de um mundo instrumentado e recha\u00e7ar as funcionalidades que fascizam o<br \/>\ncorpo e a mente. N\u00e3o me separo da minha carne. Dancei sobre a sepultura de Descartes muito antes do seu enterro. Minha carne pensa hoje o que a alma sentiu ontem. N\u00e3o me separo tamb\u00e9m nem da fragilidade do texto, nem da metaf\u00edsica do hipertexto.<\/p>\n<p>Os tempos n\u00e3o est\u00e3o assim-assim. O bio-capitalismo vacinal suspendeu a vida humana de um modo global e omnipresente. O processo de semiotiza\u00e7\u00e3o que toda a esquerda e as correntes libert\u00e1rias em geral fizeram do bio-capitalismo vacinal, plasmada no medo projectado contra qualquer forma de poss\u00edvel dissid\u00eancia, \u00e9 uma reac\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de tabu inquisitorial. Uma cren\u00e7a irracional mais perigosa e infinitamente mais preocupante do que as supersti\u00e7\u00f5es que beiram os montes perdidos deste pa\u00eds e a que o pag\u00e3o padre Fontes ati\u00e7ava os estampidos do fogo f\u00e1tuo para por o Satan\u00e1s de retro! O algoritmo ri-se avonde em gargalhadas qu\u00e2nticas com a semiotiza\u00e7\u00e3o do medo nas hostes progressistas. Regurgito e cuspo.<\/p>\n<p>Videntes dos pirilampos que afinal voltaram ao monte, unindo espa\u00e7os e fragas atrav\u00e9s da poesia, estranhados pelo mist\u00e9rio da exist\u00eancia, fascinados pela episteme das desgarradas ao desafio e das mezinhas, levitando o corpo assente na eira e na espiritualidade, arcano de todas as fic\u00e7\u00f5es, entre o esgar das caretas de Ferdydurke e dos caretos, \u00e0 coca na lura, n\u00f3s montamos as esborralhadas durante a noite, n\u00f3s armamos a silha \u00e0 matrix transhumana, ca\u00e7amos a mentira do liberalismo cultural (da esquerda \u00e0 direita) no fojo da nossa boca, por onde escorre o riso escarninho da carne viva, n\u00f3s baralhamos as encruzilhadas<br \/>\nno colo da dissid\u00eancia e convocamos a festa do Asno: Tupi or not Tupi that is the question. Regurgitamos e cuspimos. Ao mesmo tempo que ontem citavam Foucault como um mandamento bibl\u00edco, est\u00e3o hoje prontos a arrega\u00e7ar a manga e a estender o bra\u00e7o \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o do porvir do tecno-capitalismo e da promessa de desumaniza\u00e7\u00e3o do cyborguismo.<\/p>\n<p>Sacudam a vossa carca\u00e7a. Levantem-se. Fa\u00e7am o luto da nostalgia. Que outros, vossos ancestrais, estiveram acima do seu tempo.<\/p>\n<p>N\u00f3s brilhamos na noite para rodear o luar e descer o Sul<\/p>\n<p>com o vento a estalar<\/p>\n<p>nas \u00e1rvores<\/p>\n<p>em busca do feiti\u00e7o<\/p>\n<p>para matar a sede<\/p>\n<p>e festejar o casamento das almas<\/p>\n<p>porque debaixo da l\u00edngua<\/p>\n<p>trazemos o encantado<\/p>\n<p>porque n\u00f3s comemos no prato de barro<\/p>\n<p>porque Nan\u00e3 fez nosso ori<\/p>\n<p>abrimos o lugar onde o passado<\/p>\n<p>se desenrola<\/p>\n<p>e onde o devir se abre<\/p>\n<p>no cora\u00e7\u00e3o do que vai nascer<\/p>\n<p>noivai o sol, casai com a terra<\/p>\n<p>dan\u00e7ai de p\u00e9s nus.<\/p>\n<p>os pirilampos j\u00e1 voltaram ao monte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Excerto adaptado do ensaio original &#8222;UMA HERESIA CONTRA O HUMANISMO, Chocalheiros e candombl\u00e9cistas em devires neo-animistas&#8220;, publicado na antologia \u201cEnviadescer a Decolonialidade\u201d, editora Devires, S\u00e3o Paulo, Brasil (2022).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acompanhamos a \u00abevolu\u00e7\u00e3o canibal da economia mundial\u00bb. 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