{"id":18874,"date":"2022-10-13T15:30:00","date_gmt":"2022-10-13T13:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/stadtsprachen.de\/en\/?post_type=stsp_text&#038;p=18874"},"modified":"2022-10-14T12:00:19","modified_gmt":"2022-10-14T10:00:19","slug":"o-eremita","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/de\/text\/o-eremita\/","title":{"rendered":"O Eremita"},"content":{"rendered":"<p><strong>O Eremita<\/strong><\/p>\n<p>A tarde vai alta. Estou sentado sobre a rocha que sobra na praia, que se foi esvaziando de olhares curiosos. No horizonte sobra um ser deambulante, um solit\u00e1rio que lan\u00e7ou um barco sobre o mar. Quando se ter\u00e1 adentrado nas \u00e1guas? Algum dia. A minha mem\u00f3ria n\u00e3o saber\u00e1 determinar. Nem saberei precisar quanto do relatado ser\u00e3o ilustra\u00e7\u00f5es imprecisas da imagina\u00e7\u00e3o e das palavras.<\/p>\n<p>Sentado face ao imbr\u00f3glio da ilus\u00e3o \u00f3tica, infinita-se o azul do horizonte que se confunde entre c\u00e9u e a \u00e1gua. De certa forma, n\u00e3o d\u00e1 para afirmar onde paira esse barco quase indistinto. Se no mar, no c\u00e9u, ou simplesmente na ilus\u00e3o dos dois.<\/p>\n<p>Este ponto de luz, que come\u00e7ou por ser um ponto indefinido no horizonte, carregava, pelas aten\u00e7\u00f5es que atra\u00eda, o peso de perguntas curiosas e de outras que eram s\u00f3 o conforto da conversa dos velhos e das crian\u00e7as. De respostas pouco concretas, deambulantes e muitas at\u00e9 fantasiosas.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m perguntava quem seria, o que faria. Pescador? Mas o que pesca ele? \u2013 Peixes n\u00e3o \u00e9 com certeza. Homens, como o outro, t\u00e3o-pouco. E mulheres tamb\u00e9m n\u00e3o. \u2013 Riam-se vozes vizinhas que se ajuntavam, entretanto entre risos soltos da curiosidade comum. Passavam os dias e as tardes e, por vezes, avistava-se um a aproxima\u00e7\u00e3o no horizonte durante o alvor. Desembarcava.<\/p>\n<p>Sa\u00eda da sua ambulante moradia, que se esva\u00eda nos tra\u00e7os da sua barba, roupas, tudo pintado pelos amarelos mostarda, a julgar pelos quadros do impertinente pintor, e seguia pela aldeia para tratar de uns pequenos afazeres. Comerciava o que trazia, uns objetos estranhos de cer\u00e2mica outros de talha, e levava de volta um saco de serapilheira cheio de viveres. E talvez um casaco de l\u00e3, que fora oferta da complac\u00eancia de uma velha, m\u00e3e, claro, que n\u00e3o se alheia do instinto.<\/p>\n<p>Escolhia o caminho de sempre, esperava a mar\u00e9, e fazia-se ao mar de cada vez e por l\u00e1 ficava. Aclamava o vendedor da pequena mercearia, que por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias,\u00a0 tivera trocado umas palavras com ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia lembran\u00e7as de algu\u00e9m assim esquivo no povoamento. Mau n\u00e3o h\u00e1 de ser, mas bom certamente que tamb\u00e9m n\u00e3o, replicavam as vozes vizinhas mais desconfortadas com aquela presen\u00e7a ins\u00f3lita. \u2013 N\u00e3o pode ser humano. \u2013 Humanos n\u00e3o vivem s\u00f3s, s\u00e3o seres de grupo, \u201ceminentemente sociais\u201d \u2013 dizia um observador que usava o fato e gravata que trouxera da \u00e9poca em que trabalhava para as finan\u00e7as em outra ilha mais \u201cimportante\u201d que a nossa, ignorado por quase todas as vozes, \u2013 Humanos n\u00e3o podem dar-se ao luxo da solid\u00e3o. \u2013\u00a0 Prosseguia, o que achava ter contactos e fian\u00e7as aqui e al\u00e9m da nossa ilha, despindo de humanidade o que lhe era estranho. Comum nas aldeias tamb\u00e9m este personagem.<\/p>\n<p>Criou-se todo um mist\u00e9rio \u00e0 volta do homem solit\u00e1rio, que estava para al\u00e9m das possibilidades dos nossos espetadores.<\/p>\n<p>Quanto a mim\u2026 Eu ia relatando a sua apari\u00e7\u00e3o nos meus textos, mas mais que a sua vida, que necessariamente relatava, relatava o mar e as mar\u00e9s, as ondas, a cor do c\u00e9u, das nuvens. Tornei-me um especialista da metereologia da nossa ilha mas deixava-me ir pela fantasia, de forma a abstrair os coment\u00e1rios e a informa\u00e7\u00e3o imprecisa dos meus sentidos.<\/p>\n<p>A ilha era um lugar pequeno, e aquela presen\u00e7a encheu os dias n\u00e3o s\u00f3 dos seus habitantes mas tamb\u00e9m do mar que antes era s\u00f3 um vazio, ou uma fonte de sustento para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Eu aprendi a relatar a vida dele, a minha ocupa\u00e7\u00e3o com os barcos e as cordas que antes parecia imensa nesta ilha \u00e1rida, tornou-se uma deambula\u00e7\u00e3o ass\u00eddua. Passei a ser um desocupado militante.<\/p>\n<p>Ouvindo a voz un\u00edssona do murmurinho dos que pairavam em terra, veio um dia um tal homem endinheirado, que passou a organizar viagens ao mar. H\u00e1-de atrair turistas, para encontrar a paz, criou-se um slogan como \u201cencontre o infinito onde o mar se encontra com a c\u00e9u\u201d e outros slogans ocos, que dariam para a carteira de todos. E, como um pequeno luxo, de facto, a solid\u00e3o passou a ser capitalizada, passaram a fazer-se retiros no mar para todos. O mar tornou-se cheio de \u2018auto-descobertas\u2019. \u201cDescubra o seu verdadeiro eu, encontre a paz interior\u201d. Quase que se poderia dizer que de nada fez muito, o tal investimento.<\/p>\n<p>\u2013<\/p>\n<p>Como sabemos o mar n\u00e3o \u00e9 infinito, somente as ideias romanescas do mar. O mar real esbarrar\u00e1 sempre em novas terras, n\u00e3o fosse o mundo redondo, contra as vontades dos militantes da ignor\u00e2ncia. Mas a natureza n\u00e3o obedece a vontades alheias. E o eremita tamb\u00e9m n\u00e3o. E foi para terra. Deu \u00e0 costa, seguiu caminho que dava para a montanha. Perguntavam por essas terras: quem \u00e9 o estrangeiro que subiu ao monte frio e porque subiu? Deixei a praia da ilha e segui-o, como um bom rep\u00f3rter, que naqueles tempos sonhava ser. Nunca t\u00e3o perto que o incomodasse (ser\u00e1 que algo o incomodava realmente?), nunca demasiado longe, para que pudesse escrever as minhas notas, que eram lidas por cada vez mais pessoas. N\u00e3o \u00e9 que eu tivesse tido muito sucesso com elas, mas sentia que estava a relatar algo importante, a passar uma mensagem de algu\u00e9m que decidiu viver uma vida isolada, longe do tumulto da nossa pequena ilha.<\/p>\n<p>\u00c0 costa da ilha, os que ficaram no mar, n\u00e3o tendo encontrado o que esperavam, tamb\u00e9m volviam a terra. Tendo ficado no mar, os poucos que l\u00e1 se encontraram bem, por l\u00e1 ficaram, curiosamente.<\/p>\n<p>O eremita via-se seguir para o monte. N\u00e3o era o monte mais alto, nem o mais belo, nem como \u00e9 comum em hist\u00f3rias de eremitas, o mais in\u00f3spito. Era s\u00f3 um monte como todos os outros. Encontrou uma casa, que reconstruiu durante os anos, e por l\u00e1 ficou. Ficou, ficando, entendem o meu ger\u00fandio? Dava-me essa impress\u00e3o, pelo menos. Encontrou algu\u00e9m, que se aproximava, durante os dias menos bons, para levar comida, e outros bens, agora mais casti\u00e7os, mais permanentes, como um quadro, de cores mostarda, a julgar-se pela mem\u00f3ria das minhas notas.<\/p>\n<p>L\u00e1 ficou, criou fam\u00edlia, via-se alegre e triste, ofegante e calmo, como quase qualquer homem.<\/p>\n<p>Perdi interesse no objeto da minha escrita e mais no sujeito. N\u00e3o era mais uma hist\u00f3ria solit\u00e1ria a desse homem, mas uma que poderia ser a de outro homem qualquer\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o mais se falou dele, ja ningu\u00e9m lia o que eu escrevia porque ficava difuso, e menos ver\u00eddico, acusavam-me de ser um errante poeta e n\u00e3o mais um jornalista, como me chegaram a designar. O que de certa forma n\u00e3o me incomoda mais hoje. Perdi o foco, porque n\u00e3o h\u00e1 moral que sirva o meu intento liter\u00e1rio. Afinal, vi que tinha uma raz\u00e3o. Dediquei-me a escrever outras hist\u00f3rias, desprovidas de moral. Coloco-me entre uma v\u00edrgula e outra, voltando \u00e0 ilus\u00e3o de contar uma hist\u00f3ria sobre mim.<\/p>\n<p>A melhor forma que o tal antes-eremita encontrou foi diluir-se entre a vida que lhe deu uma hist\u00f3ria. Teve e continuar\u00e1 a ter uma vida conjugal, filhos, escola, que ficar\u00e1 no sop\u00e9 do monte, vizinhos, afazeres, velhice\u2026 De mim poderia esperar-se que tivesse arranjado uma moral para a hist\u00f3ria dele, ou que pelo menos arrematasse estas linhas. Mas seria errado. Seria errado interpretar a hist\u00f3ria de algu\u00e9m que continua. Posso dizer-vos simplesmente que gra\u00e7as a todo o entusiasmo que me gerou aquele vulto do in\u00edcio, eu encontrei o que hoje tenho. Uma caneta e um caderno onde esbo\u00e7o os meus dias, aqui na montanha. Hoje, o carteiro veio-me entregar um pacote. Dizia que era um sinal de respeito de algu\u00e9m. O quadro do pintor est\u00e1 hoje na parede da minha pequena casa onde, nos dias menos enublados, vejo o mar entre os montes azuis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Eremita A tarde vai alta. Estou sentado sobre a rocha que sobra na praia, que se foi esvaziando de olhares curiosos. 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