{"id":4561,"date":"2017-02-21T10:16:50","date_gmt":"2017-02-21T09:16:50","guid":{"rendered":"http:\/\/stadtsprachen.de\/?post_type=stsp_text&#038;p=4561"},"modified":"2022-06-05T18:47:44","modified_gmt":"2022-06-05T16:47:44","slug":"camelos-debaixo-do-sol","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/de\/text\/camelos-debaixo-do-sol\/","title":{"rendered":"camelos debaixo do sol"},"content":{"rendered":"<p>1.<\/p>\n<p>a Nico vivia esquecendo coisas que todo mundo diz<\/p>\n<p>que ningu\u00e9m esquece<\/p>\n<p>como primeiro beijo, a primeira trepada, etc<\/p>\n<p>um dia ela aprendeu a andar de bicicleta<\/p>\n<p>mas n\u00e3o o suficiente para evitar uma insola\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>ela usava um turbante<\/p>\n<p>por causa do sol escaldante de ibiza<\/p>\n<p>acontece que dependendo do \u00e2ngulo em se bate a cabe\u00e7a<\/p>\n<p>de nada adiantam tecidos amortecedores ao redor da testa<\/p>\n<p>voc\u00ea acaba de boca aberta<\/p>\n<p>ao lado da roda de bicicleta<\/p>\n<p>mostrando aquela mancha diagonal<\/p>\n<p>nos teus dentes da frente<\/p>\n<p>ouvindo o c\u00e9rebro sangrar<\/p>\n<p>com a mesma express\u00e3o de desamparo e espanto<\/p>\n<p>que fazem os camelos<\/p>\n<p>quando mostram a l\u00edngua<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>a nico n\u00e3o conseguia mexer a cabe\u00e7a<\/p>\n<p>nem responder as perguntas<\/p>\n<p>do estranho que a encontrou estatelada<\/p>\n<p>no meio da cal\u00e7ada<\/p>\n<p>enquanto ele a carregava para dentro de um taxi<\/p>\n<p>ela acenava com as m\u00e3os que n\u00e3o, que n\u00e3o<\/p>\n<p>no primeiro hospital n\u00e3o tinha m\u00e9dico nenhum<\/p>\n<p>no segundo tamb\u00e9m n\u00e3o<\/p>\n<p>no terceiro abriram a cabe\u00e7a dela<\/p>\n<p>e encontraram uma po\u00e7a de sangue que cantava<\/p>\n<p>morrer \u00e9 um pouco como gritar no deserto<\/p>\n<p>como voc\u00ea gritou naquele filme do philippe garrel<\/p>\n<p>voc\u00ea podia ter sido atriz se gostasse um pouco mais<\/p>\n<p>de acordar cedo<\/p>\n<p>2..<\/p>\n<p>nico, nico, para qu\u00ea que a gente dorme<\/p>\n<p>eles te chamavam de black nun, a freira negra<\/p>\n<p>porque voc\u00ea era celibat\u00e1ria como um corvo<\/p>\n<p>o leonard cohen te chamava de joana d\u2019arc<\/p>\n<p>o doutor demetrius, de the angel of death<\/p>\n<p>o problema \u00e9 que nenhum anjo socorre outro anjo<\/p>\n<p>na hora da pr\u00f3pria morte<\/p>\n<p>seria demasiada redund\u00e2ncia<\/p>\n<p>e perda de tempo<\/p>\n<p>com tantos desastres acontecendo por a\u00ed<\/p>\n<p>por que \u00e9 que algu\u00e9m ia fechar os olhos arregalados<\/p>\n<p>de uma filha de nazista que cantava com voz de homem<\/p>\n<p>teu filho envelheceu depressa<\/p>\n<p>tua biografia n\u00e3o autorizada me revirou o est\u00f4mago<\/p>\n<p>eu tenho pouco senso de humor<\/p>\n<p>e s\u00f3 rio nesses momentos desastrados<\/p>\n<p>a nico ainda fazia sexo<\/p>\n<p>quando foi morar com o iggy pop<\/p>\n<p>por algumas semanas<\/p>\n<p>eles j\u00e1 eram junkies mas at\u00e9 que n\u00e3o tanto<\/p>\n<p>ela comia arroz integral com pimenta<\/p>\n<p>para ver se se curava de uma infec\u00e7\u00e3o no ouvido<\/p>\n<p>o iggy pop dizia que um dia<\/p>\n<p>quando as pessoas tivessem ouvidos para ouvir a nico<\/p>\n<p>elas iam ficar de boca aberta, salivando<\/p>\n<p>e criar falsas orelhas de abano<\/p>\n<p>recortadas em cartolina<\/p>\n<p>o iggy pop dizia que andar com a nico<\/p>\n<p>era que nem estar com um cara<\/p>\n<p>except that she had girl parts<\/p>\n<p>3.<\/p>\n<p>li um artigo do the guardian na internet<\/p>\n<p>que dizia que a nico n\u00e3o era flor que se cheire<\/p>\n<p>dizem que ela quase atingiu o olho de uma mulher negra<\/p>\n<p>com a ponta de uma garrafa<\/p>\n<p>dizendo I hate black people<\/p>\n<p>um artigo de jornal e todo meu texto se espatifa<\/p>\n<p>meu est\u00f4mago revira em treze convuls\u00f5es<\/p>\n<p>e tudo se mistura, a mesa de bar, os cacos,<\/p>\n<p>a manchete, os v\u00f4mitos<\/p>\n<p>da\u00ed voc\u00ea se lembra que quando era adolescente<\/p>\n<p>a nico foi estuprada com outras garotas<\/p>\n<p>por um sargento negro americano<\/p>\n<p>ela trabalhava para a for\u00e7a a\u00e9rea americana em berlim<\/p>\n<p>ela tinha quinze anos<\/p>\n<p>teu est\u00f4mago se revira em mais algumas convuls\u00f5es<\/p>\n<p>porque uma coisa n\u00e3o justifica a outra<\/p>\n<p>ela n\u00e3o era inocente mas estava na merda<\/p>\n<p>ela estava na merda mas n\u00e3o era inocente<\/p>\n<p>e essas cadeias engatilhadas de brutalidade gratuita<\/p>\n<p>te fazem ter vontade de pedir asilo em alguma nave alien\u00edgena<\/p>\n<p>a nico \u00e9 essa estranha que voc\u00ea n\u00e3o consegue deixar de amar<\/p>\n<p>mesmo com todas as ressalvas do universo<\/p>\n<p>que merda<\/p>\n<p>n\u00e3o sei se eu consigo te explicar isso<\/p>\n<p>se eu consigo te explicar como eu amo a nico<\/p>\n<p>mesmo ela sendo uma junkie com tend\u00eancias nazi<\/p>\n<p>segundo certos boatos<\/p>\n<p>4.<\/p>\n<p>ela est\u00e1 virada para mim, de boca aberta, p\u00e1lida<\/p>\n<p>as sobrancelhas arqueadas<\/p>\n<p>estupefata<\/p>\n<p>parece uma est\u00e1tua<\/p>\n<p>tem gente que vira est\u00e1tua, ou \u00e1rvore, antes do tempo<\/p>\n<p>tenho vontade de colocar a m\u00e3o dentro da boca dela<\/p>\n<p>como eu colocava<\/p>\n<p>na boca de um or\u00e1culo de pl\u00e1stico<\/p>\n<p>de um parque de divers\u00f5es em s\u00e3o paulo<\/p>\n<p>quando eu era pequena<\/p>\n<p>o or\u00e1culo dizia, com uma voz rob\u00f3tica cavernosa:<\/p>\n<p>ponha a m\u00e3o na minha boca<\/p>\n<p>e eu obedecia<\/p>\n<p>o or\u00e1culo do parque de divers\u00f5es<\/p>\n<p>era a imita\u00e7\u00e3o de um monumento de roma<\/p>\n<p>que morde a tua m\u00e3o<\/p>\n<p>se voc\u00ea contar uma mentira<\/p>\n<p>eu colocava a m\u00e3o l\u00e1 dentro e tinha medo de estar mentindo<\/p>\n<p>mesmo dizendo a verdade<\/p>\n<p>mesmo n\u00e3o dizendo a verdade<\/p>\n<p>juro que a nico estava virada para mim<\/p>\n<p>de boca aberta, l\u00e1bios p\u00farpura<\/p>\n<p>eu tinha vontade de colocar a m\u00e3o<\/p>\n<p>na garganta dela<\/p>\n<p>para ela n\u00e3o morrer sozinha<\/p>\n<p>enfio a m\u00e3o na boca da nico<\/p>\n<p>como os m\u00e9dicos enfiam palitos de sorvete<\/p>\n<p>na tua boca<\/p>\n<p>para enxergar tuas cordas vocais<\/p>\n<p>nico, enfio a m\u00e3o na tua boca<\/p>\n<p>como que dentro da garganta de um cavalo<\/p>\n<p>a nico \u00e9 um cavalo, eu tenho certeza<\/p>\n<p>n\u00e3o, n\u00e3o tenho certeza de nada<\/p>\n<p>a nico n\u00e3o \u00e9 um cavalo, ela \u00e9 um camelo<\/p>\n<p>com duas corcovas cheias de \u00e1gua<\/p>\n<p>e dois bra\u00e7os cheios de pus<\/p>\n<p>coloco a m\u00e3o na boca do camelo<\/p>\n<p>para tocar tuas cordas vocais<\/p>\n<p>vamos fazer um pacto de sangue, nico icon<\/p>\n<p>vamos fazer um pacto de anagramas<\/p>\n<p>eu arrasto as minhas vogais<\/p>\n<p>como voc\u00ea arrasta as tuas<\/p>\n<p>ando viciada em or\u00e1culos<\/p>\n<p>quero derramar um pouco de saliva<\/p>\n<p>nos teus c\u00edlios<\/p>\n<p>5.<\/p>\n<p>a nico atravessava fronteiras<\/p>\n<p>com hero\u00edna escondida dentro do \u00e2nus<\/p>\n<p>colheres entortavam quando ela cantava em alem\u00e3o,<\/p>\n<p>a l\u00edngua mais antip\u00e1tica do mundo<\/p>\n<p>jogaram garrafas na nico<\/p>\n<p>na pen\u00faltima vez que ela tocou em berlim<\/p>\n<p>o \u00faltimo show da nico foi num planet\u00e1rio<\/p>\n<p>cheio de ecos<\/p>\n<p>ela ia alfinetando estrelas como mariposas<\/p>\n<p>com a l\u00edngua<\/p>\n<p>estrelas \u00e9 o tipo de palavras<\/p>\n<p>que devia ser proibido nos poemas<\/p>\n<p>mas foda-se<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. a Nico vivia esquecendo coisas que todo mundo diz que ningu\u00e9m esquece como primeiro beijo, a primeira trepada, etc um dia ela aprendeu a andar de bicicleta mas n\u00e3o o suficiente para evitar uma insola\u00e7\u00e3o ela usava um turbante por causa do sol escaldante de ibiza acontece que dependendo do \u00e2ngulo em se bate 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