{"id":10514,"date":"2019-02-17T18:16:42","date_gmt":"2019-02-17T17:16:42","guid":{"rendered":"https:\/\/stadtsprachen.de\/?post_type=stsp_text&#038;p=10514"},"modified":"2021-02-07T18:40:22","modified_gmt":"2021-02-07T17:40:22","slug":"uma-janela-em-berlim","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/en\/text\/uma-janela-em-berlim\/","title":{"rendered":"Uma Janela em Berlim"},"content":{"rendered":"<p>Da janela da seu apartamento na rua Schillingstrasse n\u00famero nove, perto da pra\u00e7a Strausberger Platz, Sr. Walter observa o que restou do barulho e da alegria do brilho dos fogos do Reveillon.<\/p>\n<p>Agora j\u00e1 \u00e9 ano novo. Dois mil e dezesseis.<\/p>\n<p>Pelo jeito soltaram foi fogos nesse Reveillon. \u00d4 gente fogueteira.<\/p>\n<p>Sr. Walter quis continuar morando em Berlim depois da morte da esposa. Os outros filhos o chamaram para morar no sul, onde havia mais sol, mas ele se recusou. J\u00e1 tinha se acostumado com a correria e as cores, as pessoas simp\u00e1ticas e as briguentas de Berlim. Tinha a turma de brasileiros, amigos de Tereza e tamb\u00e9m seus amigos. A professora de portugu\u00eas da Escola do Povo morava no bairro e sempre que cozinhava um feij\u00e3o, levava uma por\u00e7\u00e3o num potinho de pl\u00e1stico para seu Walter.<\/p>\n<p>Ele mantinha uma certa alegria de caminhar pelas ruas do bairro, passar na frente do cinema, uma sensa\u00e7\u00e3o que lhe fazia bem, ainda que sem compensar a falta que a falecida esposa lhe fazia.\u00a0Mas precisava essa falta ser compensada?<\/p>\n<p>Havia sim uma solitude, mas n\u00e3o era tristeza. \u00a0Os filhos mais jovens, Sandra e Rene, ainda moravam n apartamento imenso, antigo de mil novecentos e doze, mas era como se morasse sozinho. Cada um tinha sua vida e estava bom assim. \u00a0\u00c0s vezes nao dava nem pra perceber que um deles estava em casa. A maioria da mob\u00edlia ele tinha comprado com Tereza antes de se casarem, fora o sof\u00e1 antigo com flores na madeira trabalhada e o aparador de carvalho que tinha herdado da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Walter comprava um buquezinho de flores no supermercado e enfeitava sua mesa de caf\u00e9 da manh\u00e3. Era assim que a esposa fazia.<\/p>\n<p>Ele abria a janela da sala e via outras janelas. Parecia um quadro surrealista: janela com vista para a janela com vista para a janela com vista para a janela.<\/p>\n<p>No inverno desta cidade muitos dias transcorrem cinzas e de repente o que tem por tr\u00e1s de uma janela \u00e9 mais interessante que a paisagem que ela mostra.<\/p>\n<p>Sr Walter costuma se encontrar com os amigos pro almo\u00e7o, na rua Friedrichstrasse. Os mesmos amigos, o mesmo local, h\u00e1 anos. Igual, mas diferente. Tem muita mo\u00e7ada por aqui agora e seu Walter gosta de observar. Agora se pode ouvir jovens falando \u00e1rabe na Alexanderplatz, Berlim est\u00e1 mudando. \u201eSer\u00e1 que eu tambem mudei?\u201c Walter se pergunta.<\/p>\n<p>Tereza n\u00e3o gostava do paninho que a sogra (quando era viva) punha no sof\u00e1. Achava muito &#8220;de alem\u00e3o&#8221;. Mas esse restaurante na Friedrichstrasse tem paninho na janela: &#8220;muito de alem\u00e3o&#8221;, pensou seu Walter, sem comentar essa observa\u00e7ao com os outros.<\/p>\n<p>No restaurante, ele e os amigos aposentados conversam bobagens e se divertem. Algu\u00e9m contou uma coisa t\u00e3o engra\u00e7ada que Sr. Walter riu muito e sua barriga at\u00e9 doeu. Agora ele n\u00e3o se lembra mais.<\/p>\n<p>Pela janela do metr\u00f4 ele v\u00ea uma propaganda do novo cd de David Bowie, que morreu ontem. Outro que morreu novo, comenta com seus botoes.<\/p>\n<p>Quando ele volta pra casa j\u00e1 est\u00e1 escuro. A professora de portugu\u00eas passou por l\u00e1 e deixou um bilhete na porta: Semana que vem n\u00e3o vai ter aula. Podemos repor esse s\u00e1bado. Fa\u00e7o um feij\u00e3ozinho pra n\u00f3s, a Marguerite vem tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Seu Walter decide que vai na aula de reposi\u00e7\u00e3o no s\u00e1bado, precisa falar melhor portugu\u00eas quando as visitas do Brasil chegarem na p\u00e1scoa.<\/p>\n<p>Uma certa pujan\u00e7a ele reconhece dentro de si, de continuar, uma curiosidade pela vida. Felicidade? Tesouro?<\/p>\n<p>Walter pensa que tem que aprender a usar o telefone celular que era de Tereza. Sandra vai lhe ensinar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da janela da seu apartamento na rua Schillingstrasse n\u00famero nove, perto da pra\u00e7a Strausberger Platz, Sr. Walter observa o que restou do barulho e da alegria do brilho dos fogos do Reveillon. Agora j\u00e1 \u00e9 ano novo. Dois mil e dezesseis. 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