{"id":15575,"date":"2021-03-02T10:55:58","date_gmt":"2021-03-02T09:55:58","guid":{"rendered":"https:\/\/stadtsprachen.de\/en\/?post_type=stsp_text&#038;p=15575"},"modified":"2021-03-17T12:16:37","modified_gmt":"2021-03-17T11:16:37","slug":"vulcoes","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/en\/text\/vulcoes\/","title":{"rendered":"Vulc\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Boa, a ma\u00e7\u00e3, falou com a voz, mas a cara dizia outra coisa. Fez um muxoxo colando no tampo da mesa a etiqueta que tinha acabado de arranhar da fruta. Alisou repetidamente por cima com a palma da m\u00e3o retesada. As paredes ressoavam o chiado da esfrega\u00e7\u00e3o compulsiva, chu chu chu. O autocolante j\u00e1 colado, ela n\u00e3o precisava exagerar, o neto pensou. Os nervos! E de repente ele achou que n\u00e3o devia ter oferecido a ma\u00e7\u00e3, n\u00e3o tinha pensado que trazia \u00e0 tona a lembran\u00e7a do ritual da av\u00f3 com o av\u00f4. Quarenta anos o marido descascou a fruta para ela depois do<\/p>\n<p>almo\u00e7o, ela queria esquecer. Quarenta anos ela tirava o autocolante com a ponta da unha, prensava no tampo da mesa e chu chu chu, a m\u00e3o ficando dura. Quarenta anos de conviv\u00eancia de frustra\u00e7\u00e3o de fastio sedimentados ali em camadas de etiquetas cada<\/p>\n<p>vez mais grossas. Se aquele tampo de mesa falasse. Contaria do desamor escorrendo nos sil\u00eancios fatiados das ma\u00e7\u00e3s. Agora que ele morreu \u2013 deus o guarde \u2013 ela queria esquecer. Agora a hora sonhada h\u00e1 quarenta anos.<\/p>\n<p>De repente deu um soco na mesa, anunciou, a voz estridente: esses autocolantes, tem gente que coleciona, eu li no jornal. Sorriu para abrandar o susto do neto, o rapaz tinha aberto uns \u00f3i\u00e3o. A av\u00f3 sempre t\u00e3o calma t\u00e3o controlada, n\u00e3o era de erup\u00e7\u00f5es. Mas<\/p>\n<p>a lava agora for\u00e7ava caminho e ela assim sem motivo aparente gargalhou. Tem at\u00e9 quem roube essa porcaria, saia do supermercado escondendo no avesso das roupas os selinhos, tava escrito na mat\u00e9ria, posso te mostrar. E, envergonhada, colou o sorriso amarelo na mesa por cima das etiquetas.<\/p>\n<p>Num reflexo enfiou uma fatia grossa na boca, engoliu sem morder. Engasgou-se com a fruta e com lembran\u00e7a do velho e de toda uma n\u00e3o-vida uma escolha malfeita, que burrice dobrei a esquina errada. Asfixiou com aquela certeza atrasada, trambolho fechando a garganta ainda mais que a ma\u00e7\u00e3. Queria esquecer, mas era muita acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Resfolegando foi at\u00e9 a copa para cuspir no tanque, caiu no goto, ela se desculpou. Junto com engasgo veio um solu\u00e7o alto ou grito sufocado, n\u00e3o sei dizer. Ent\u00e3o, chorou o que se poderia chamar de copiosamente. Nas barbas do choro, a fala abafada de s\u00e9culos resolveu jorrar. Era magma engrossado querendo esguichar por todos os buracos. O neto,<\/p>\n<p>plantado com o prato de ma\u00e7\u00e3 fatiada na m\u00e3o lembrou da aula na faculdade, era Geof\u00edsica, estavam dando vulc\u00f5es. As erup\u00e7\u00f5es podem ser divididas em explosivas e efusivas. Ele enfiou uma fatia na boca e mastigou ruminou. As erup\u00e7\u00f5es explosivas s\u00e3o causadas pela acumula\u00e7\u00e3o de vapor e gases sob elevadas press\u00f5es, que s\u00e3o libertados de forma violenta. Pensou em chamar a vizinha e j\u00e1 foi saindo bater na porta ao lado, era um pr\u00e9dio dois por andar.<\/p>\n<p>A vizinha, j\u00e1 de tantos anos, veio entrando, veio abra\u00e7ando, sei bem o que sente, o meu falecido tamb\u00e9m morreu. E nisso a av\u00f3 desenfreia uma risada desvairada e a outra, meu deus qual a gra\u00e7a. O neto pondera, a av\u00f3 estava nervosa estava desfeita por causa da perda do av\u00f4. As erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas podem ser extremamente ruidosas. A vizinha fez cara de tacho. Mas Aparecida, s\u00f3 ela sabia, estava aliviada, botando para fora os quarenta anos.<\/p>\n<p>E num rompante, meu filho eu queria que voc\u00ea jogasse essa mesa fora! E j\u00e1! O grito sa\u00eddo entre olhos arregalados e \u00e2nsias de v\u00f4mito. E tamb\u00e9m, quer saber, n\u00e3o gosto de ma\u00e7\u00e3! E nem suportava o cheiro do marido, Set Ma\u00e7\u00e3 Verde Da Brasil Nativo \u2013 Deo Col\u00f4nia e Sabonete. E d\u00e1 um tapa nas m\u00e3os do neto, assim do nada, e o prato voa num arco, as fatias de ma\u00e7\u00e3 espalhadas para todo lado. As erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas podem lan\u00e7ar blocos de rocha a centenas de metros ou mesmo alguns quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. A vizinha balan\u00e7a a cabe\u00e7a, est\u00e1 alterada,<\/p>\n<p>haja paci\u00eancia. Aparecida na mesma hora pede desculpas e o neto tem certeza, agora surtou de vez, a represa estourou. E como se ela tivesse ouvido, jorra<\/p>\n<p>um \u00faltimo grunhido um grito um urro de l\u00e1 de dentro, uma coisa que eu nunca vi. A raiva segurada por baixo de tantas camadas de autocolantes avalanchava<\/p>\n<p>tarde demais. Tarde demais, tarde demais, tarde demais. Entendeu: a liberdade nascia velha, j\u00e1 n\u00e3o servia para nada. Nisso, emerge das funduras em agudo esgani\u00e7ado o derradeiro solu\u00e7o. Ent\u00e3o, acalma. Encerra o espet\u00e1culo t\u00e3o de repente como come\u00e7ou. A cortina fecha, ela rep\u00f5e a m\u00e1scara e ouve a voz do rapaz que \u00e9 mais um eco, senta v\u00f3. A erup\u00e7\u00e3o finaliza com um fluxo de lava viscosa.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, meio Lexotan tr\u00eas vezes por dia, a vida continua. A vizinha perdoou e seguiu abra\u00e7ando, seguiu ajudando, magina, estamos a\u00ed pra isso. N\u00e3o tardou, foi morar com o neto. Agora a ma\u00e7\u00e3 \u00e9 raspadinha, n\u00e3o engasga.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boa, a ma\u00e7\u00e3, falou com a voz, mas a cara dizia outra coisa. Fez um muxoxo colando no tampo da mesa a etiqueta que tinha acabado de arranhar da fruta. Alisou repetidamente por cima com a palma da m\u00e3o retesada. As paredes ressoavam o chiado da esfrega\u00e7\u00e3o compulsiva, chu chu chu. 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