{"id":22743,"date":"2024-12-04T14:10:00","date_gmt":"2024-12-04T13:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/stadtsprachen.de\/en\/?post_type=stsp_text&#038;p=22743"},"modified":"2024-12-04T20:27:49","modified_gmt":"2024-12-04T19:27:49","slug":"amargura","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/en\/text\/amargura\/","title":{"rendered":"Amargura"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora que tr\u00eas anos se passaram, j\u00e1 posso recuper\u00e1-los nisto que acredito ser importante, torn\u00e1-los de forma considerada em algo fact\u00edvel, algo de uma hist\u00f3ria minha. Daqui h\u00e1 uns anos certamente escreverei novamente sobre tal per\u00edodo e, por consequ\u00eancia, nascer\u00e1 outra hist\u00f3ria, uma nova recontagem dos fatos que, mesmo derivada deste momento particular, dever\u00e1 de certo ser muito mais agressiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo aconteceu na chegada \u00e0quela cidade, cidade que repeli de forma brusca, refletindo a mem\u00f3ria de sua pr\u00f3pria brutalidade, de meus sentimentos desalojados sempre que lembro que ainda estou aqui, que a vida se fez nela. Ainda n\u00e3o tinha nem trinta anos, sentia a aspereza do mundo e os fracassos em todas as minhas tentativas de fincar p\u00e9 no ch\u00e3o, tudo enquanto os arredores eram ainda incertos e me causavam grande temor. Estava ali, t\u00e3o nova, apenas vinte e nove anos, com a pouca experi\u00eancia que me concedi; jurava ter mais que aquilo, jurava ser mais velha do que minha pr\u00f3pria idade e que, entre picos de tomada de riscos e muito medo, encontraria qualquer solu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0s estranhices daquela grande loucura, que tudo poderia resolver. De forma geral, ansiava pela mudan\u00e7a de tudo: tinha a determina\u00e7\u00e3o da juventude, era ainda grande conhecida de mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ing\u00eanua, quase um percevejo na avenida principal, volto a mim quando recoleto estes anos passados. Ainda n\u00e3o me convenci se tamanha ingenuidade seria rem\u00e9dio para os caminhos absurdos que partilhei com a vida, ou a minha pr\u00f3pria cruz talhada em grandes bestarias. Pois bem. De maneira brusca, cada caminho se abria em bifurca\u00e7\u00f5es descontroladas, eu sentia a grande curiosidade dos mundos, desordenados, uma algazarra infantil, e podia ser tudo muito amargo e d\u00f3cil, geralmente eram os dois juntos em um desalinho grande el\u00e9trico. Me vi entre o a\u00e7oite dos desejos de pessoas que jamais me impressionaram, me vi com a voz baixa e eu pequena, n\u00e3o de tamanho, mas de exist\u00eancia. Lembrar dos desfavores que fiz \u00e0 mim mesma neste per\u00edodo \u00e9 sentir grande dessabor, me faltou muito empenho ali e coragem, nunca admiti n\u00e3o ter coragem para as coisas, que covardia, pois bem, tr\u00eas anos se passaram e ainda estou aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Penso que conto demais com as coisas enormes da vida, que passos menores pudessem ter me valido tamb\u00e9m ou melhor. Refleti sobre a esp\u00e9cie de amargor que me tomava, mais duro que as laranjas e os ch\u00e1s para curar o est\u00f4mago, esses dois que eu conhecia bem, um da cidade espanhola e outro l\u00e1 de casa. Tive medo de ser eu mesma a cat\u00e1lise do amargor. Meus gestos seguiam a incongru\u00eancia das ruas bifurcadas, traduziam os meus medos, meu corpo moldava-se aos despaut\u00e9rios das coisas que dizia, e eu fazia todos os dias coisas que n\u00e3o me impressionavam, me amargurava ainda mais, s\u00f3 que lentamente, distraindo-me com as futilidades de pessoas pr\u00f3ximas, seus narcisos e repeti\u00e7\u00f5es, cada vez mais empenhadas em abonar seus ego\u00edsmos disfar\u00e7ados. Me tornei algo irreconhec\u00edvel at\u00e9 para mim mesma, eu, que sempre fora o diabo, coisa que aprendi desde pequena mesmo, ser o capeta e ent\u00e3o ser aut\u00f4noma, escrever o meu caminho. Agora eu era ali, um percevejo, amargurada, nada mais que uma \u00f3rbita estranha, insalubre, cantando as m\u00fasicas dos sabi\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas as mem\u00f3rias. Pelas ruas enquanto ainda era um diabo, aprendi antes de tais anos amargurados uma inven\u00e7\u00e3o de mundos, algo quase magn\u00e9tico, uma cat\u00e1strofe sem limite, a qual vivi t\u00e3o intensamente que nem as beiradas do sonho me sobraram depois. A hist\u00f3ria ao todo tem seis anos, mas de mem\u00f3ria penso que s\u00e3o os \u00faltimos tr\u00eas que gostaria de anular. Tais anos eu chamaria de amargura, os tr\u00eas anteriores eu chamaria de desejo. Outra vez, n\u00e3o estou de todo convencida que \u00e9 efeito causal de uma e de outra; tanto desejei e vivi que tudo se esvoa\u00e7ou aos ventos, chegaram os anos abissais, encontrei atr\u00e1s de mim uma sombra que me ofereceu al\u00edvio mais r\u00e1pido, e com sua colher de xarope amargo, me venceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesses anos, estava andando por apenas um lugar, decidi fazer tudo quase a p\u00e9 mesmo. Naquele certo dia, um dia frio, na ponta hipn\u00f3tica da rua o monumento da cidade, parecia perto, mas estava ainda h\u00e1 uns cinquenta quarteir\u00f5es da vista. N\u00e3o caminhava para o monumento de qualquer forma, andava, quando ainda tinha o p\u00e9 bom para andar, andei tantas vezes pelas ruas dali, e eu nunca gostei daquele lugar. Os pr\u00e9dios todos de mesmo tamanho n\u00e3o me impressionavam, dif\u00edcil era algo me impressionar naquela rua. N\u00e3o gostava mesmo dali: me sentia golpeando o destino que quis criar para mim, eu ouvia as mesmas hist\u00f3rias e via as mesmas pessoas, era o mesmo clube sem grandes impress\u00f5es. Por ali eu caminhava e me faltava tudo, era uma grande tortura, um aperto dos meus ombros at\u00e9 o quadril, do\u00eda, tamb\u00e9m n\u00e3o sentia a ponta dos meus dedos, exceto quando eles formigavam. Vivi de ang\u00fastia, pois me faltava o ch\u00e3o, esse foi o meu diagn\u00f3stico para a coisa toda. O que eu gostava mesmo era quando podia sair dali: levantava os ombros, cantava, meu corpo mexia, sentia fome, ligava para um amigo e faz\u00edamos piada e eu ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato, eu gostava dos pr\u00e9dios mais altos e coloridos do outro bairro, um outro bairro bem mais longe, pra l\u00e1 do monumento, mas dizer aquilo em voz alta seria inevit\u00e1vel blasf\u00eamia para os tempos vividos, havia um grande policiamento das coisas ditas por ali. De arrependimento levo todo o tempo que me arrastei pelo bairro cinza e o tempo que perdi sem visitar o bairro das cores, e a composi\u00e7\u00e3o que ficou em mim das mem\u00f3rias daquele lugar. Poderia hoje ter uma galeria de imagens muito distinta, mais feliz, com delicado efeito e significado. Entendo meu amargor enquanto revisito minhas bibliotecas pessoais, entendo ainda mais a camada ilustre de ang\u00fastia ressecada adicionada nesses \u00faltimos tr\u00eas anos. Ser\u00e1 muito trabalhoso botar a casa em ordem, retirar a bagun\u00e7a que eu trouxe para dentro, essa covardia dos tempos, o cinza dos dias, a falta de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estou indo em voltas. Como contornar a desilus\u00e3o de um erro de tr\u00eas anos? Pois sim. Um dia, quando retornei \u00e0 casa que deixara faz uma d\u00e9cada, desliguei meu aparelho de mensagens e abandonei meus velhos sentimentos. Tinha outras coisas em mente: botar a menina na escola \u00e0s 12, estudar para as provas, procurar trabalho, passar as segundas no cart\u00f3rio. O saldo extra era conviver no fantasma de uma vida que abandonara faz uma d\u00e9cada. A contagem do tempo estava cada vez mais pr\u00f3xima da minha dificuldade em fincar o p\u00e9 no ch\u00e3o do presente, tudo se remexia e fazia grande sentido, tudo muito penoso, e eu \u00e0 duras voltas andava naquelas ruas de uma vida passada t\u00e3o bruta, revivendo eventos esquecidos. Como pode em uma rua do monumento ser eu tal vers\u00e3o inabit\u00e1vel de mim, assistindo c\u00f3pias baratas de uma classe mediana fresca, um lugar avesso, e do outro lado da hist\u00f3ria voltar ao ponto de pura viol\u00eancia em que tudo come\u00e7ou, e viver tranquila?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o recorte do hor\u00e1rio das coisas acabou e tudo se abriu ao esplendor da cidade outra vez, j\u00e1 era ver\u00e3o. Me pareceu a decis\u00e3o mais sensata entrar no metr\u00f4 pela primeira vez depois de tanto tempo, ir at\u00e9 o monumento principal da cidade, dar uma olhadela e voltar. Nada ali me lembrava da palavra amargura, tudo era desejo e curiosidade, disso sei hoje quando lembro de tudo, dos tr\u00eas anos antes destes. Sei de c\u00f3r o nome das ruas e das cal\u00e7adas, os pequenos e grandes morros, as clareiras, as plan\u00edcies, o lago, as lavandas, os vinhos doces, o rio, as cores das pontes, os barcos, os nomes dos barcos, a m\u00fasica, as noites, os nasceres do sol e a grande lua da esta\u00e7\u00e3o Norte. H\u00e1 mem\u00f3rias que est\u00e3o l\u00e1, sob radiante magnitude, para que o esquecimento do presente n\u00e3o afete a funda\u00e7\u00e3o das coisas. Quando eu me reorganizar, vou juntar toda a hist\u00f3ria em um s\u00f3 volume, editar minhas papeladas, torn\u00e1-lo este desalinho grande el\u00e9trico, levar a amargura embora, tom\u00e1-la at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o central e dizer-lhe: \u00e9 hoje, grande amiga. Podes ir, que o diabo em mim h\u00e1 de chegar em breve, e vamos nos mudar daqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora que tr\u00eas anos se passaram, j\u00e1 posso recuper\u00e1-los nisto que acredito ser importante, torn\u00e1-los de forma considerada em algo fact\u00edvel, algo de uma hist\u00f3ria minha. 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