{"id":26352,"date":"2026-06-18T15:35:00","date_gmt":"2026-06-18T13:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/stadtsprachen.de\/de\/?post_type=stsp_text&#038;p=26352"},"modified":"2026-07-16T15:14:34","modified_gmt":"2026-07-16T13:14:34","slug":"berlim-ainda-nao-voltei","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/en\/text\/berlim-ainda-nao-voltei\/","title":{"rendered":"Berlim: ainda n\u00e3o voltei"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cidade enterrou meus idealismos. Cada setor de passagem tem sua vez, primeiro a cal\u00e7ada e os pedestres, ent\u00e3o as bicicletas, as duas faixas de asfalto, os bolares e a linha do tram em duas dire\u00e7\u00f5es, seguindo as pessoas que beijam-se nos rostos e ent\u00e3o se separam, seguem para seus lados, seus setores e suas passagens. Logo mais perto dali a rua e as linhas opostas do tram d\u00e3o no mesmo centro, mais largo, mais pesado, mais cinza e mais quadrado. Foi precisamente nesse centro que meus idealismos encontraram seu fim, desmembrados como cada setor da cidade, este lugar sem v\u00ednculos onde uma parte jamais encontra caminho, se combina \u00e0 outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu j\u00e1 estive aqui antes, mas ainda, de fato, n\u00e3o voltei. Por viver esse passado que ainda lembro, nessa mesma rua, assistindo esse mesmo movimento, sinto o pesar do fracasso, a continuidade de um dos meus grandes erros. Confusa, h\u00e1 uns dias tomei esse mesmo tram e desci na frente da igreja, indo ainda mais profundamente numa de suas ruas \u00e0 direita, buscava uma sopa espec\u00edfica e um caf\u00e9 de determinado local. Muito se diz que nessa cidade tudo se encontra; pode at\u00e9 ser, se respeitando os setores e as passagens de destino. Lembro quando anos atr\u00e1s entrei nessa mesma papelaria da esquina que agora olho atrav\u00e9s da janela de grande esquadro e branca, quando peguei uma pasta com divis\u00f3rias, e tudo por aqui me parece sempre dividir-se ou ser dividido; lembro que o que senti ent\u00e3o \u00e9 exatamente o que sinto agora: o fim das coisas, uma enorme falta de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E nada mudou. Seguem ainda os que caminham e se dividem. No fundo, o marcador entre o pr\u00e9dio branco e o laranja, uma antena, radial ou parab\u00f3lica, e ent\u00e3o muitas outras seguidas em linha. Gosto de dizer das parab\u00f3licas, que elas unem desejos e pedidos, como a captura dos sinais a que elas atendem. De vez em quando digo \u00e0s minhas amigas na cidade que estou lhes enviando um radinho para que chegue em suas parab\u00f3licas, uma das minhas formas de manter nossos v\u00ednculos, encontrar um caminho entre os setores. Algumas me mandam sinais de volta. Quase sempre me embara\u00e7o pelos bolares da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E de pensar, n\u00e3o lembro t\u00e3o bem das coisas quanto parecia. J\u00e1 faz tr\u00eas ou quatro anos desde que tentei viver aqui pela primeira vez, que desci por aquela rua, que encontrei a sopa e o caf\u00e9 em dias distintos e me frustrei igualmente. A verdade \u00e9 que j\u00e1 no segundo m\u00eas, fugi. Voltei para a cidade que mantinha minhas paix\u00f5es vivas, l\u00e1 onde tudo era de grande esplendor e natureza, at\u00e9 o outono e o rio, o inverno e o vinho, a primavera e as chuvas, o ver\u00e3o e os barcos. Para cada setor e suas passagens a divis\u00e3o dos mundos, dos h\u00e1bitos e do viver, das vidas que me habituei a viver, divididas pelos bolares e linhas de tram no asfalto, e os barcos nos p\u00ederes do rio. Mais um casal se abra\u00e7a e se separa, segue um pela rua e o outro espera para atravessar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vejo, por fim, que dos meus primeiros sonhos hoje sou muito pouco, restou em mim apenas um visgo daquela primeira esperan\u00e7a, daquela paix\u00e3o e da natureza dos dias em festa. Festejar era abra\u00e7ar os amigos e caminhar pela mesma rua, sem os cortes e intersec\u00e7\u00f5es ou passagens, tudo estava aberto e l\u00e1 \u00edamos, t\u00ednhamos as horas e os dias, t\u00ednhamos algo para olhar e o esplendor, ambos bonitos e distantes da crueldade daqui. Meus idealismos, enterrados, n\u00e3o levaram consigo o espa\u00e7o que usei para cultiv\u00e1-los; o grande problema de um espa\u00e7o sem uso \u00e9 que algo prontamente entrar\u00e1 em seu lugar, divis\u00f5es, setores e passagens se instalar\u00e3o, dependendo das circunst\u00e2ncias e da localiza\u00e7\u00e3o. Aqui nessa rua, nessa janela e nessa mem\u00f3ria, vejo meu corpo endurecido pelos dias e pela falta, pela coragem que acabou e pela espera de algo ainda sem forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A morte do sonho, o enterro, as horas e os dias cortados se amontoam, vejo as radiais e os p\u00e1ssaros que n\u00e3o s\u00e3o livres, todos sentados em linha por cima das antenas e perto do crep\u00fasculo, vejo passar algu\u00e9m do meu passado, cruzar a rua e os bolares com pressa, entrar na viela do lado esquerdo da igreja e desaparecer, tudo isso em alguns minutos e para minha completa surpresa. Lembrei-me de suas viol\u00eancias comigo e ent\u00e3o uma nova e ampla radial de lembran\u00e7as se abriu entre os setores. Penso que deixarei isto desaguar no grande largo do fim da linha de passagem: nem tudo deve ser lembrado ou diagnosticado, algumas coisas podem ser deixadas como pequenos pontos, insignificantes da hist\u00f3ria, de vez em quando abertos apenas por um cruzamento de passagens e setores de uma rua em que j\u00e1 n\u00e3o venho mais, e que, claramente, j\u00e1 n\u00e3o vem mais a mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Da janela, dentro da Bibliothek am Wasserturm, com vista para Prenzlauer Allee\/Immanuelkirche<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Berlin, 04 de Novembro de 2024<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cidade enterrou meus idealismos. 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