{"id":5767,"date":"2017-08-09T09:10:34","date_gmt":"2017-08-09T07:10:34","guid":{"rendered":"http:\/\/stadtsprachen.de\/?post_type=stsp_text&#038;p=5767"},"modified":"2020-11-29T18:16:09","modified_gmt":"2020-11-29T17:16:09","slug":"china","status":"publish","type":"stsp_text","link":"https:\/\/stadtsprachen.de\/en\/text\/china\/","title":{"rendered":"China"},"content":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o sei o que me deu. Mas tamb\u00e9m eu estava com muita fome. Deve ter sido isso. Sen\u00e3o, n\u00e3o. Nunquinha. N\u00e3o fazia mesmo, tinha d\u00f3. Mas, a fome. J\u00e1 fazia uns sete dia sem, acho, comida. Ou at\u00e9 mais, quem sabe. Ou menos. N\u00e3o me lembro. \u00c9, eu sei, triste, n\u00e9. Mas, olha, tem lugar no mundo onde isso \u00e9 normal. Na China, por exemplo. As pessoa nem liga. Faz parte da cultura deles l\u00e1. Isso eu sei porque li no jornal. Eu sei ler, sim. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de se aceitar, n\u00e3o acha? De as pessoa em volta achar normal e fazer a mesma coisa. O que era pecado passa a ser bem visto. Na China, eu li. No Vietn\u00e3 tamb\u00e9m. Em alguns pa\u00edses da \u00c1frica. Durante a guerra era normal. Se voc\u00ea pensar bem, depende s\u00f3 das circunst\u00e2ncia. Ou n\u00e3o? \u00c9 como voc\u00ea agredir algu\u00e9m. Matar. Se estiver se defendendo pode.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aquele olhar de desespero pregado no meu. Deu d\u00f3. Mas o vazio pra mais de duas semana, no est\u00f4mago. Uma semana e meia. N\u00e3o sei, n\u00e3o lembro. Como tive essa ideia? Tamb\u00e9m n\u00e3o sei. Ficava olhando para mim. Daquele jeito humilhado. Me aporrinhava, aquilo. Acho que foi quando olhou de repente pro meu creme de leite, acho que foi a\u00ed que a ideia me veio. Tem lugar onde isso \u00e9 considerado uma iguaria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu misturava creme de leite com a\u00e7\u00facar. Muito a\u00e7\u00facar. D\u00e1 um sustento bom. E mais a cacha\u00e7a, claro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma verdadeira iguaria. No jornal, eu at\u00e9 recortei, posso mostrar, tava escrito que na China tem uma festa a\u00ed com um nome esquisito, um festival. O que eu fiz, o pessoal l\u00e1 faz em p\u00fablico. E ningu\u00e9m vai pra cadeia feito eu. E n\u00e3o \u00e9 de fome. \u00c9 de festa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Queria o meu creme de leite. Devia de estar faminto tamb\u00e9m. Se bem que, a\u00ed, pela rua a\u00ed, se virava bem. Queria o pouco do creme de leite que eu quase nem tinha mais nada. Aquilo me deu raiva. Me deu a raiva que eu precisava para fazer o que fiz. A gente j\u00e1 fazia pra mais de ano junto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Iguaria, eu n\u00e3o sabia nem o que significava. Achei que era uma coisa assim igual \u00e0s outra. N\u00e9? Iguaria, igual. Mas diz que \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. Uma coisa rara, especial. Vai saber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Preparam um banquete. Ab\u00f3bora ao vapor, pepino esmagado, farinha de arroz, l\u00e1 na China.<\/p>\n<p>E no centro da mesa, bem ali no mei\u00e3o, fica o prato principal. Fica ali, dependurado assim, exposto. Ningu\u00e9m se incomoda.<\/p>\n<p>De especial ou raro, n\u00e3o vejo nada. Que iguaria o qu\u00ea?!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A senhora j\u00e1 passou fome? Fome de verdade, v\u00e1rios dia sem comer?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A gente tava na sala. N\u00e3o! A gente tava no quintal mesmo. Eu fui pra cozinha e voltei com a tigela de creme de leite. Olhou pra mim, olhou pro creme de leite. Fez uma cara feia que nunca tinha feito. Mostrou os dente.<\/p>\n<p>Mas talvez a gente estivesse na sala vendo televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Pegou o meu creme de leite. N\u00e3o, n\u00e3o foi isso. Derrubou o pote de a\u00e7\u00facar. Era o a\u00e7\u00facar, o \u00faltimo pote.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pele vai ficando esturricada. Feito quando a gente pega muito sol. Seca. Come\u00e7a a rachar feito a terra de l\u00e1 de onde eu venho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sempre derrubava as coisa.<\/p>\n<p>Logo no primeiro dia que veio pra c\u00e1, derrubou tamb\u00e9m o a\u00e7\u00facar. Faz j\u00e1 tempo. Eu dei uma surra. Bati, sim. Olhou pra mim o tempo todo enquanto apanhava. Eu tava b\u00eabada. Eu senti muita raiva. Acho que tomou gosto de apanhar, n\u00e3o parou mais de derrubar as coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c0s vezes ficava anos sem chover. Eu sempre passei muita fome. A pele seca feito a terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E quanto mais olhava com aquela cara de humilha\u00e7\u00e3o, mas me dava raiva. Uma vez bati tanto que ficou sem andar uns dois dia. Escorracei. Mas n\u00e3o ia embora n\u00e3o. Engra\u00e7ado, n\u00e9? Vai ver gostava de apanhar. \u00c9 capaz. Quando bebo perco a cabe\u00e7a. Sen\u00e3o, n\u00e3o. S\u00f3bria era uma agarra\u00e7\u00e3o s\u00f3, n\u00f3s. Eu gostei quando apareceu a\u00ed. Sou muito sozinha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o aprendia nada na escola porque tinha fome. Quase nada, s\u00f3 um pouco, ler e escrever o nome. Com fome n\u00e3o se aprende. Com fome n\u00e3o se pensa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, a pele dela era feito a terra, rachada. E tinha cheiro de acetona. E a boca. Quando a gente fica muito tempo sem comer, a pele e a boca cheira a acetona.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Chegou a\u00ed ontem de noite. Eu nunca tinha visto, n\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o morava aqui, n\u00e3o, me enganei. Chegou ontem mesmo. Ou anteontem, n\u00e3o lembro. Eu tava com fome, tinha bebido o dia inteiro, eu n\u00e3o pensei duas vezes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pol\u00edcia quem chamou foi o vizinho. Caguete! O barulho da paulada, parece que o vizinho ouviu. O uivo. Quando chegou o oficial, eu j\u00e1 tinha come\u00e7ado a destrinchar. A esquartejar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A minha m\u00e3e ela era uma mulher bonita. Mas rachou todinha e come\u00e7ou a feder a acetona. Um belo dia esfarelou. A pele da pessoa, o corpo do sujeito vai se devorando de dentro pra fora. Se a pessoa n\u00e3o come mais nada, n\u00e3o demora nem quatro semana, morre.<\/p>\n<p>Fazem v\u00e1rios assado, um banquete temperado com gengibre, alho, casca seca de laranja, folha de louro e funcho. Deu no jornal, eu li. No mundo inteiro famosa, essa festa.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, t\u00e3o bonita, no passado fez a mesma coisa que eu agora. Mas l\u00e1 onde eu cresci isso tamb\u00e9m \u00e9 normal. Ningu\u00e9m se importa. A minha m\u00e3e at\u00e9 que sim, fez chorando. Lembro dela esquartejando. E lembro do uivo, que foi igual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>L\u00e1 na China as pessoa agora t\u00e3o se incomodando, t\u00e3o protestando. De barriga cheia \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Os vizinho aqui, a mesma coisa. De barriga cheia, o vizinho, disse assim, que ficou triste, em estado de choque, que d\u00f3! E de mim, n\u00e3o tem d\u00f3?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu ouvi o choro da minha m\u00e3e misturado ao barulho da peixeira e do uivo.<\/p>\n<p>Naquele dia, nunca me esque\u00e7o, eu tava brincando de olhar pro c\u00e9u, imaginando nuvem. A\u00ed ouvi, n\u00e3o esque\u00e7o. Nuvem l\u00e1 s\u00f3 imaginada. Ela tinha acordado cedo e saiu andando, J\u00e1 volto, j\u00e1, fica a\u00ed!, ela disse. Foi indo, atravessando o pasto, que j\u00e1 n\u00e3o era mais, agora s\u00f3 ch\u00e3o de terra rachada. A gente andava bem devagar pra n\u00e3o pisar nas fenda e cair. Foi longe, ela, ele atr\u00e1s, os dois, devagarzinho. Quando olhei era s\u00f3 dois pontinho e depois sumiu. Tudo quieto. Eu, imaginando nuvens. A\u00ed ouvi. Dizem a\u00ed que eu tenho problema emocional. N\u00e3o acho, nem problema nem emo\u00e7\u00e3o, tenho fome.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A gente j\u00e1 ia dormir, cada um pro seu canto. Eu desliguei a televis\u00e3o. Olhou pra mim enviesado, uivou. Do nada, assim. E n\u00e3o parou mais, n\u00e3o parava. N\u00e3o sei o que me deu. Senti uma raiva, a barriga vazia.\u00a0 Eu nunca tinha feito uma coisa dessas. Que deu d\u00f3, deu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o sei o que me deu. Mas tamb\u00e9m eu estava com muita fome. Deve ter sido isso. Sen\u00e3o, n\u00e3o. Nunquinha. N\u00e3o fazia mesmo, tinha d\u00f3. Mas, a fome. J\u00e1 fazia uns sete dia sem, acho, comida. Ou at\u00e9 mais, quem sabe. Ou menos. N\u00e3o me lembro. \u00c9, eu sei, triste, n\u00e9. 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